We Are - Capitulo 7



Ev
Acordei com um gosto amargo na boca. Minha mandíbula doía, latejava a cada pulsação. Tentei entender onde estava. Olhei ao redor e deduzi que era a sala. Mas o que não fazia sentido era por que eu estava ali. E mais: por que meu rosto doía tanto? E… por que Justin estava deitado de conchinha comigo, respirando forte contra o meu pescoço?

— Justin… — tentei me mexer, mas o braço dele segurava firme a minha cintura. — Justin, acorda.

Senti a respiração dele mudar. Ele me virou de frente para encará-lo.

— Sua cara tá horrível — murmurou, me analisando por um segundo antes de fechar os olhos de novo.

— O que aconteceu? — sussurrei, enquanto uma onda de dor latejava na minha cabeça.

— Você não se lembra do que aconteceu ontem? — Ele abriu os olhos, me fitando.

— Eu sei que fugi de casa… Kaia me chamou para um bar novo, e depois… depois não lembro de mais nada. Só sei que minha boca…

— Uau. Você não lembra mesmo… — Ele riu, um riso curto e irritante.

— É sério. O que aconteceu? E, principalmente, por que eu tô aqui? E por que você… a gente… Meu Deus! — Sentei-me de repente, mas a tontura veio junto assim que o sol invadiu minha visão.

— Ah, eu não fui pago pra isso, sabia? — Ele se levantou e fechou as cortinas.

Assim que meus olhos se acostumaram à pouca luz, analisei Justin à minha frente. Só de cueca. Ele era bem malhado, com um corpo definido e coberto de tatuagens. Não esperava por aquilo. Até então, além da tatuagem no rosto, nunca tinha reparado no quanto ele era tatuado. Na verdade, eu sempre o via usando roupas de frio.

— Se olhar por mais de dois minutos eu começo a cobrar. — A voz dele me trouxe de volta à realidade. Ele arqueou uma sobrancelha. — O que aconteceu foi que você resolveu testar a minha paciência ontem. Fugiu de casa, foi pra um bar, aí um babaca começou a mexer com você. Quando tentou ir embora, empurrou o cara e ele te deu um soco. Aí, eu quase matei ele.

Matou? — Meus olhos se arregalaram.

— Sim. Esse é meu trabalho. — Ele se jogou na poltrona, com uma confiança que quase me fez suspirar.

— E o que aconteceu depois? — perguntei, temendo a resposta.

— A gente brigou. Depois, viemos para casa. — Ele começou a mexer no celular, casualmente.

— E como a gente acabou assim, no sofá? — Apontei para nossas roupas.

— Você teve um pesadelo. Veio pra cá porque não queria dormir no seu quarto. Tentou me agarrar, e eu te prendi no sofá porque tava com muito sono.

— Ah… — Abracei meu próprio corpo, envergonhada só de imaginar a cena. — Desculpa.

— Não, foi divertido. — Ele riu de novo.

— Que bom que pelo menos alguém se divertiu… Olha… as coisas que eu disse… esquece, tá?

— Quais? Sobre seu tio ou sobre eu ser um cachorro raivoso? — Ele ergueu uma sobrancelha, desafiador.

— Acho que não quero mais saber sobre ontem…

— É melhor mesmo. Vai tomar um banho. Eu vou fazer alguma coisa pra gente comer.

— Ok… — Me levantei, meio tonta, e peguei meu celular. Havia mensagens de Kaia e da minha tia. Ignorei todas.

Desci as escadas ainda com a cabeça latejando. Depois de descobrir que o desgraçado cortou minha boca e deixou minha mandíbula com um hematoma, a ideia de Justin matá-lo até que começou a parecer interessante. O aroma vindo da cozinha estava delicioso, mas o enjoo me fez hesitar por um instante.

— Finalmente você apareceu. A comida vai esfriar. Tome isso. — Ele me entregou dois comprimidos e um copo d’água. — E depois, tome o café. — Assim que terminei o copo, ele me estendeu uma xícara fumegante.

— O cheiro está ótimo. — Sentei-me no banco, analisando tudo que estava no balcão.

— Você gostou mesmo do meu cheiro, hein? Está falando disso até agora.

— O quê? — Minha expressão deve ter sido cômica, porque ele riu e se aproximou com um prato cheio de torradas, bacon e ovos.

— Gosto de você bêbada. É engraçado.

— Eu não vou beber nunca mais. — Suspirei, mordendo um pedaço de bacon.

— Por que decidiu vir pra cá, se odeia tanto esse lugar?

— Não pensei direito. Quando li aquele recado dos meus pais, só queria sair daquela casa e nunca mais voltar.

— Entendi. — Ele pegou o meu último pedaço de bacon.

— Ei, devolve! — Tentei pegar de volta.

— Fui eu que fiz. — Ele começou a se afastar, e eu fui atrás dele.

— Ok, mas eu estava comendo!

Segui Justin até ele se virar, e acabei esbarrando nele. Ri, e ele me segurou pela cintura. Com a outra mão, colocou o bacon diretamente na minha boca.

— Você já sabe que roupa vai usar na festa da sua tia?

— Não. Geralmente ela manda algo bem decotado e justo.

— Interessante. — Ele me levantou, me colocando sentada na bancada e ficando entre as minhas pernas.

— E você, o que vai usar? — Apoiei as mãos no mármore, e ele se aproximou ainda mais, suas mãos firmes na minha cintura.

— O de sempre, terno. — Ele riu, chegando tão perto que eu podia sentir seu hálito quente e mentolado.

— Não acha que está muito perto?

— Algum problema com isso? — A voz dele soou grave, quase desafiadora.

— Nenhum. — Sorri de lado. — Muito pelo contrário.

— Acho que estamos chegando a um denominador comum.

Justin deslizou uma das mãos pelo meu cabelo, inclinando minha cabeça de lado, e começou a deixar beijos quentes em minha pele. Meu corpo inteiro se arrepiou. Estava louca para beijá-lo, mas não daria o primeiro passo. Experiências ruins demais já me ensinaram que essa definitivamente não é a minha vibe. Meu celular tocou, e, antes que eu pudesse ver quem era, a porta da sala se abriu.

— Está esperando alguém? — Justin se afastou um pouco.

Antes que eu respondesse, minha tia entrou, acompanhada por quatro homens que pareciam seguranças e uma mulher loira de cabelo oxigenado ao lado dela.

— Minha querida, você ainda não foi para o salão? Meu Deus, vamos nos atrasar!

— Atrasar? — Desci da bancada.

— Sim! Temos que estar lindas para a festa. Ah, essa é Elena Lincoln, minha nova assistente.

— Olá. — Sorri, e ela apenas acenou educadamente.

— Elena vai passar para o Justin todos os lugares aonde ele deve te levar. Só vim pegar alguns papéis e já estou voando de novo. Vou buscar os Matos no aeroporto. A festa é para eles.

— O quê? Tia, podemos conversar sobre minha ida a essa festa?

Minha atenção se desviou quando percebi Justin e Elena na cozinha. Ela ria de algo que ele dizia. Devem ter a mesma idade, pensei. Elena mexia no cabelo a cada comentário, e Justin, sério e casual, segurava um iPad em uma das mãos. Por um momento, ele olhou para mim, ergueu a sobrancelha e me fez sair do transe. Fui atrás da minha tia, que já estava no escritório.

— De onde saiu essa Elena? — Cruzei os braços, irritada.

— Era do TI de um dos restaurantes do seu tio. Você viu? Ela e Justin se deram bem. — Ela riu, mexendo no cofre.

— Como assim?

— Ela rindo toda boba, ele todo sério. Eu entendo dessas coisas, querida.

— Se você diz.

A imagem de Justin e Elena sozinhos na cozinha me deu uma sensação estranha no estômago. Não que eu tenha algo a ver com isso, mas ele é meu... meu segurança.

— O que foi, querida? Está passando mal? — Minha tia pousou a mão na minha testa.

— Acordei meio mal. Estava indo tomar café agora.

— Então tome seu café e se arrume para o salão.

— Tia, por mais que eu ame o pré-dia de festa, tenho mesmo que ir? Todo mundo já me conhece lá.

— Querida, Simone e o filho estarão lá. Eles sentem falta de Gianni. Ninguém melhor do que a joia rara dele para animar as pessoas.

Suspirei, sem paciência para esse tipo de argumento. Minha mente estava na cozinha, e minha raiva estava na gaveta de facas, pronta para explodir.

Saímos abraçadas do escritório, dando de cara com Elena rindo e jogando o cabelo para trás. Justin cruzava os braços, acompanhando a risada dela. A mulher pegou um cartão e entregou para ele.

— O papo está ótimo, mas precisamos ir. Tudo bem por aqui, Justin? A mocinha não aprontou nada?

— Sim, tudo sob controle, senhora Lancaster. — Ele respondeu, com um sorriso que me irritou profundamente.

Assim que saíram, me joguei no sofá, sentindo meu sangue pulsar. Justin se aproximou e se sentou ao meu lado.

— Você tem muita coisa para fazer, mas ainda não tomou o café da manhã. E não terminamos nossa conversa na cozinha. O que quer fazer primeiro?

Antes que ele pudesse tocar minha perna, levantei, arrumando minha blusa.

— Estarei pronta em cinco minutos. Pode me esperar no carro.

Subi sem a mínima paciência para enfrentar as obrigações do dia, mas, se ficasse naquele sofá mais um minuto com Justin, eu o mataria.

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