We Are - Capitulo 21
1 Anos depois...
Justin
O mar da Sicília não tinha cheiro de paz. Tinha cheiro de pólvora e promessas não cumpridas.
Do alto do terraço da mansão, eu observava o horizonte enquanto o vento cortava o rosto. Um ano. Trezentos e sessenta e cinco dias de silêncio, dor e preparação.
Ryan se aproximou, discreto, com uma taça de uísque na mão.
— Eles confirmaram. Nacho passou as últimas semanas viajando pela América Central. Parece que anda expandindo território com a desculpa do noivado — ele disse, colocando a taça na mesa de pedra ao meu lado. — Mas a Ev… continua sumida.
Fechei os olhos por um segundo. O nome dela ainda me atingia como um soco. Ev não sumia. Ev não se escondia. Ela estava presa. E cada dia longe dela era uma sentença de morte para mim.
Domenico apareceu logo depois, vestindo preto como sempre, com um cigarro entre os dedos.
— Os contatos no México disseram que há movimentação em um dos galpões antigos dos Matos. Nenhum sinal concreto da Ev, mas pode ser um dos lugares onde a mantêm longe dos holofotes.
Assenti, sem olhar para ele. A ponta do cigarro brilhou quando ele tragou fundo.
— Eles vão cometer um erro. Vão relaxar. E quando fizerem isso, eu vou estar esperando — disse, a voz baixa e sem pressa.
— Justin, com todo respeito… — Ryan começou, hesitante. — Um ano sem nenhum sinal dela. E se ela…
— Não. — Minha voz cortou o ar como lâmina. Virei devagar, encarando os dois. — Não pensem. Não cogitem. Ela está viva. E enquanto eu respirar, ela continua sendo minha prioridade.
Ryan assentiu, engolindo o que ia dizer.
— Temos homens espalhados por quatro países, satélites monitorando as propriedades conhecidas dos Matos. O problema é que eles se esconderam atrás de alianças políticas. Se a gente entrar agora, sem provas, vamos parecer os vilões.
— Eu não preciso de prova. Preciso de sangue.
Silêncio. O tipo que só existe entre homens que sabem o preço da guerra.
Apoiei as mãos na beirada da mureta e encarei o mar. O som das ondas era constante, como um lembrete cruel de que o tempo passava — e ela ainda não estava comigo.
— Vamos quebrar as alianças dele, uma por uma. Quero o nome de cada investidor, cada político, cada segurança que trabalha pra ele. Vamos derrubar tudo que sustenta o nome “Matos”.
— E quando a gente encontrar ela? — Ryan perguntou.
A imagem dela me atingiu de novo. Os olhos marejados. A voz trêmula pedindo pra eu não deixá-la. A promessa que fiz com o corpo quebrado e a alma em ruínas.
— A gente traz ela pra casa. Nem que eu precise atravessar o inferno com os joelhos em carne viva.
Domenico soltou um suspiro lento. Sabia que, a partir daquele momento, não havia mais volta.
A guerra estava declarada.
E o nome dela era a única razão pela qual eu ainda respirava.
Ev
O som do ventilador enferrujado girando no teto era a única coisa que me mantinha ancorada ao tempo. Um, dois, três… doze giros. Depois o chiado da hélice falhava, como se até o motor tivesse cansado de fingir normalidade.
O galpão onde me mantinham tinha sido transformado em um “refúgio médico”, segundo Paulina. Uma cama estreita, luzes frias, e um médico particular pago para me manter “doente” o suficiente para justificar meu sumiço do mundo — mas não tanto a ponto de me deixar inconsciente por completo.
Era um teatro. E eu era a atriz principal.
As injeções que fingiam ser calmantes, os diagnósticos vagos, os jornais com matérias sobre “Ev Lancaster Matos” enfrentando uma “condição delicada” enquanto seu noivo, Nacho, fazia discursos apaixonados sobre o amor eterno que sentia por mim.
A farsa do século.
— Hora da sua medicação, senhora Matos — disse a enfermeira, abrindo a porta com sua voz monótona de sempre.
— Não sou Matos — repeti, sem levantar os olhos do teto.
Ela não respondeu. Nunca respondia. Era como falar com uma parede.
Engoli o comprimido que não fazia efeito algum. Parte do jogo. Parte do acordo silencioso para não provocar outra crise como a da semana passada, quando tentei fugir. Eles estavam deixando claro: enquanto eu fingisse, Justin estaria a salvo.
A verdade era uma prisão mais cruel do que qualquer corrente: eu estava aqui para protegê-lo. Eles prometeram que se eu continuasse com a encenação, ele ficaria vivo. Se eu contasse a verdade, se denunciasse o acordo, eles “retirariam o problema”. Nacho não falava nomes, mas eu sabia. O problema era Justin.
Deitei de lado e abracei os joelhos. Sentia falta dele como se tivesse deixado um órgão do corpo para trás. O som da risada dele, o calor das mãos, o jeito que me chamava de teimosa. Eu sentia falta até das brigas. Porque até brigando, ele me amava.
E agora ele devia me odiar.
A porta se abriu de novo. Era Simone Matos, com aquele sorriso fingido, os sapatos caros e o perfume doce demais.
— Como está a nossa noivinha hoje? — ele perguntou, fingindo ternura.
— Desejando estar morta, mas obrigada por perguntar.
Ele riu, como se eu tivesse feito uma piada.
— Vai passar. Logo, tudo isso será parte do passado. A cerimônia já está marcada. Poucos convidados, algo íntimo. Só até a mídia parar de se perguntar por que você não aparece mais.
— Eu nunca vou subir naquele altar.
— Você já está nele, querida. Só está esperando a cortina abrir.
Fechei os olhos. Inspirei fundo. Não choraria. Não mais. As lágrimas já não surtiriam efeito. A única coisa que eu ainda podia fazer era esperar por uma brecha. Um descuido. Um erro. Porque se eu conseguisse fugir… se eu pudesse encontrá-lo…
Justin vai me odiar. Mas pelo menos vai saber a verdade.
💙💙💙
E quando souber — ele vai queimar o mundo por mim.
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