We Are - Capitulo 19
Ev
Meu dia estava insuportável. Nada encaixava. As roupas pareciam apertadas demais, o ar pesado demais, e meu peito… meu peito era um caos. Se eu pudesse, arrancaria meu coração e colocaria outro no lugar — um que não sentisse tanto, que não doesse tanto por ele.
— Temos muitas coisas pra ver.
A voz de Paulina me trouxe de volta à sala, e ela entrou com aquele andar elegante de sempre, os saltos sendo tirados como se estivesse em casa — e, de certo modo, estava. Jogou-se no sofá como quem tem o mundo aos seus pés.
— Cabelo, unhas, vestido… precisamos de algo à altura de uma Lancaster. Essa festa vai ser o evento do ano em Portland — ela dizia enquanto deslizava o dedo pela tela do celular, como se falasse de algo banal, sem peso. Mas, de repente, ela parou. Levantou o olhar e me encarou com frieza.
— Eu não quero ir nessa festa — soltei, num ímpeto. — Eu não gosto do Nacho. Tenho nojo dele. Eu não...
— Quando você vai deixar de ser assim? — Paulina me interrompeu com a paciência no limite. — Ele é um homem incrível. Sempre esteve ao seu lado. Ele te ama, Ev. Por que não aceita logo que o seu futuro é com ele?
— Porque não é!
Minha voz saiu mais alta do que o necessário, mas eu não consegui conter. Me ajeitei no sofá começando a perder a paciencia, sentindo meu corpo inteiro vibrar com a raiva e o desespero que estavam engasgados há dias.
— Tia, eu não entendo essa obsessão pelo Nacho. Por essa família. Quando isso vai acabar? Eu nunca vou amar ele. Nunca! E quando eu for embora daqui, vou ser feliz. Com outra pessoa.
As palavras saíram rápidas demais, impulsivas demais. E assim que terminaram, senti o erro. O silêncio que se seguiu pesou como chumbo.
Paulina me encarou. Séria. Fria. Como se tivesse acabado de identificar uma ameaça.
E naquele instante, eu soube: eu tinha ido longe demais.
Paulina cruzou as pernas devagar, ainda me observando como quem analisa uma peça de xadrez prestes a ser sacrificada. O silêncio dela foi pior do que um grito. Eu quase desejei que ela perdesse o controle, que quebrasse algo, que levantasse a voz. Mas não. Paulina era perigosa justamente por isso. Ela nunca explodia — ela calculava.
— Com outra pessoa… — repetiu, como se saboreasse as palavras. — Entendo. Então é por isso que está assim. Finalmente deixou alguém entrar, não foi?
Engoli em seco, mas não respondi. Meu silêncio já dizia tudo.
Ela apoiou o cotovelo no braço do sofá e recostou o queixo na mão, com um sorriso que não chegou aos olhos.
— Sabe, Ev... você é mais ingênua do que eu pensei. Esse seu ar rebelde, essa ideia de liberdade, de amor verdadeiro... — ela deu uma risada breve, seca. — Isso não existe no nosso mundo. Não pra gente. Você acha que vai sair daqui e viver um conto de fadas? Que esse... alguém, seja lá quem for, vai poder te proteger do que vem depois?
— Eu não preciso que ninguém me proteja — respondi, firme, mesmo sentindo minhas mãos tremerem.
— Claro que precisa. — Ela se levantou com calma, pegando o salto de volta. — E vai perceber isso quando for tarde demais. Quando entender que suas escolhas têm consequências. E que eu... nunca deixo ninguém escapar.
Fiquei ali, parada, enquanto ela caminhava até a porta com a postura impecável de quem acredita ter vencido. Antes de sair, ela virou o rosto por cima do ombro.
— Você vai ao baile, Ev. Querendo ou não. E vai sorrir, usar o vestido que mandei fazer, e dançar com Nacho como se ele fosse seu futuro. Porque, de fato, ele é.
— Eu... falei alguem de forma metaforica, foi só por falar — murmurei, desviando o olhar, tentando escapar da tempestade que se aproximava nos olhos de Paulina.
Ela se levantou devagar, com o porte de quem carrega décadas de certezas, e veio se sentar ao meu lado no sofá. Seu perfume adocicado me envolveu como uma nuvem densa, sufocante.
— Está se envolvendo com alguém, querida? — perguntou, com a voz quase terna demais para ser sincera. — Florzinha, quer um conselho de alguém que já amou demais na vida?
Balancei a cabeça, mas ela ignorou a negativa como sempre fazia e seguiu falando:
— Tudo o que uma mulher precisa é de um homem rico, musculoso, disposto a gastar fortunas para vê-la sorrir. O resto... é ilusão.
Virei para encará-la, indignada.
— Isso não tem nada a ver com amor. O meu tio... ele sempre te deu tudo de si. Amor, cuidado, presença. O dinheiro nunca foi o centro da vida dele. Eu não entendo por que você fala assim.
Ela soltou uma risada seca, sem humor.
— Falo assim porque o amor, minha querida, sempre acaba. Ele pode suspirar depois de uma noite com você, mas no dia seguinte vai encontrar algo melhor para fazer. E você... você vira só mais uma rotina. Um hábito sem graça.
— Meu tio nunca foi assim. Esse seu discurso... eu simplesmente não reconheço você nele.
— Seu tio não era esse príncipe encantado que você inventou. Ele tinha muitos defeitos. O egoísmo era um deles.
— O quê? Você só pode estar ficando louca!
— Olhe como fala comigo — ela se levantou de súbito, o tom cortante. Eu a segui, pronta para pôr fim naquela conversa.
— Não, a senhora é quem precisa ouvir. Eu não vou ficar aqui, escutando você reescrever a história de um homem que me ensinou o que era amor de verdade. Você não entende esse sentimento. E ele... ele era a tradução viva do que é amar. — Respirei fundo, tentando conter as lágrimas. — Acho que morar aqui não está mais funcionando. É melhor eu voltar para a casa dos meus pais... ou encontrar um apartamento. Pra mim, deu.
— Você não vai sair daqui! — ela exclamou, agarrando meu braço com força. Tentei me soltar, mas suas unhas afiadas cravaram na minha pele, provocando uma ardência súbita. — Você pediu para ficar aqui e eu permiti. Agora seja menos mimada e faça uma coisa, só uma coisa que eu estou pedindo. Você vai àquela festa. E quando o Nacho te pedir em casamento... você vai sorrir e dizer sim. Entendeu?
— O quê?
Justin
A noite estava estranhamente silenciosa, como se Portland inteira prendesse a respiração. Eu não consegui dormir. Fiquei deitado, encarando o teto, ouvindo a chuva fina começar a bater contra as janelas do quarto de hóspedes como se fosse um aviso.
Ev não me mandava mensagens há dias. Não desde aquela última conversa em que, pra afastá-la, eu fui mais frio do que jamais quis ser. Era o único jeito de tentar protegê-la… mesmo que isso me destruísse aos poucos.
Mas agora, depois da visita de Nacho, tudo tinha mudado. Ele sabia. Não só sobre mim, sobre meu sobrenome, sobre minha família... mas ele sabia que eu estava apaixonado por ela. E esse era o tipo de coisa que, no nosso mundo, custava caro demais.
Pior: eu vi nos olhos dele. Ele não estava jogando. Ele ia mesmo fazer de tudo pra tê-la. Casar com ela. Tomar o nome, o território... tudo.
Tentei traçar mil planos, elaborar mil rotas de fuga, imaginar qualquer maneira possível de sair daqui com a minha garota. Mas a verdade é que o plano original — descobrir quem matou meu pai e Gianni — já não ocupava espaço real na minha cabeça. Não mais. Agora, tudo o que importava era encontrar uma forma de tirá-la disso da melhor maneira possível.
Só que estar em território dos Matos era como pisar em um campo minado — e eu sabia disso desde o início. A guerra entre nossas famílias vinha de gerações. Começou com os avôs, se agravou com a morte do meu pai e explodiu de vez quando Mario recusou qualquer tentativa de conciliação. E agora, com Nacho sabendo exatamente quem eu era, cada segundo aqui era uma bomba-relógio prestes a explodir.
Meus devaneios foram interrompidos por vozes elevadas vindo da sala. Sabia que Ev estava em casa, mas havia outra voz — firme, controlada, venenosa. Paulina.
Me aproximei em silêncio, ficando encoberto pela parede do corredor. E foi ali, ouvindo sem ser visto, que vi tudo ruir.
— Acho que morar aqui não tá mais funcionando pra mim — a voz de Ev soou embargada, firme mesmo assim. — Talvez seja melhor eu voltar pra casa dos meus pais… ou procurar um apartamento. Já deu, Paulina. Chega!
Ela estava de pé, olhos marejados, rosto corado de raiva. Na frente dela, Paulina mantinha a pose impecável de sempre, como se tudo ao redor não passasse de um jogo que ela já tinha vencido.
— Você não vai sair daqui — Paulina respondeu, fria como gelo. — Foi você quem pediu pra ficar. Eu abri as portas, e agora o mínimo que espero é que cumpra com sua parte. Você vai a essa festa, Ev. E quando o Nacho te pedir em casamento, você vai sorrir. Vai dizer sim. Entendeu?
Foi ali que o incômodo voltou a crescer dentro de mim. Aquele maldito desconforto que me visitava nos momentos mais sombrios. Um nó na garganta, a respiração acelerando. Era o presságio.
O monstro que eu mantinha trancado há meses começou a se agitar — aquele lado obscuro que precisei conter desde que fui enviado pra cá. Ryan o apelidou de Bizzle, uma mistura do meu sobrenome com uma droga que transformava qualquer um em tempestade.
E naquele instante, com o olhar desesperado da Ev cruzando o meu no momento em que apareci na sala… ele acordou.
Meu monstro se ergueu. E eu soube: alguma coisa muito ruim estava prestes a acontecer — e eu não ia mais ficar parado.
— Está tudo bem por aqui? — perguntei, me aproximando com passos firmes até parar atrás de Ev, que respirava com dificuldade, como se estivesse tentando conter uma tempestade dentro de si. — Ouvi alguns gritos.
— Está tudo sob controle, Justin — ela respondeu, rápida demais, com um sorriso forçado. — Que bom que você apareceu. Preciso te passar o itinerário da semana. Teremos um evento importante e não podemos nos dar o luxo de atrasos. Me acompanhe até meu escritório, precisamos resolver isso agora.
Paulina virou-se e entrou no escritório com a postura rígida de quem está acostumada a comandar. Fechou a porta atrás de si com um clique seco. Sem pensar muito, meus pés a seguiram, como se atraídos por uma força invisível — ou talvez por algo mais perigoso do que isso.
Aproximei-me dela, devagar, até poder inclinar o rosto e murmurar junto ao seu ouvido, numa voz baixa que era quase uma carícia.
— Sobe. Tranca a porta do seu quarto... e me espera no meu.
Ela se virou com expressão indecifrável, os olhos fixos nos meus por um instante que pareceu eterno. Mas eu não disse mais nada. Apenas me afastei, recobrando a postura, e fui até o escritório para encarar a velha e tudo o que aquela semana ainda prometia.
Justin
Entrei no escritório e encontrei Paulina me observando com aquele olhar frio e calculista que ela dominava tão bem. A tensão no ar era quase palpável, e o silêncio entre nós parecia o prenúncio de uma tempestade.
— Vou direto ao ponto — disse ela, cruzando os braços com firmeza. — Nacho me contou que vocês têm se estranhado ultimamente. E, segundo ele, talvez você seja o motivo de Ev não querer se casar.
— Eu? — soltei uma risada curta, incrédulo. — Com todo o respeito, senhora, mas Ev já disse mais de mil vezes que sente nojo desse cara. Não acho que eu tenha qualquer influência nisso.
Ela arqueou uma sobrancelha e sorriu, mas o gesto foi mais venenoso do que simpático.
— Não me faça de tola, Justin. Sei muito bem que vocês têm saído com frequência. Pra alguém que mal colocava os pés fora de casa, agora ela vive em bares, restaurantes, boates... está mais na rua do que sob este teto. Curioso, não?
Meu maxilar travou. A paciência começava a escapar por entre os dedos.
— E onde a senhora quer chegar com isso?
Paulina se levantou lentamente, apoiando as mãos na mesa como se quisesse impor domínio sobre o espaço — ou sobre mim.
— Simples — disse, com a voz baixa e firme. — Amanhã, Ev será pedida em casamento. E eu espero, do fundo do meu coração, que você não atrapalhe.
Tive que respirar fundo para manter o controle. Nas últimas horas, já haviam sido dois banhos frios só pra manter Bizzle em silêncio — a parte de mim que não conhecia limites, e que estava cada vez mais impaciente com essa casa e seus fantasmas. Eu sabia que meus dias ali estavam contados... e que Bizzle já estava afiando as garras, pronto para fazer o que fazia de melhor: eliminar obstáculos.
— Já que estamos sendo tão francos por aqui — retruquei, com a voz contida —, quero que saiba que eu não forcei nada. Não a influenciei, não a manipulei. Ev é uma mulher adulta, sabe exatamente o que quer — ou o que não quer.
— E você realmente acha que ela quer você? — Ela riu, como se eu tivesse contado a melhor piada do dia. — Justin, você é apenas um segurança. Nada mais. Não é esse o tipo de futuro que os Lancaster esperam. Não me leve a mal... mas você não vai conseguir nada aqui. E se pretende continuar com seja lá o que estiver fazendo, é melhor fazer as malas e voltar pra sua casa. Porque esse casamento vai acontecer — você querendo ou não.
Paulina voltou a se sentar e começou a folhear papéis, como se aquela conversa tivesse sido apenas mais um ponto na agenda do dia. Eu a encarei em silêncio por alguns segundos, lutando contra a enxurrada de pensamentos — entre eles, incontáveis maneiras de mandar essa múmia direto para o além.
— Você está dispensado — disse, sem nem olhar pra mim. — Deixe o carro pronto. Amanhã, eu o trago de volta.
Não respondi. Apenas a encarei por mais um instante antes de sair da sala com os punhos cerrados e a respiração descompassada, sentindo que, se ficasse ali por mais um minuto, eu acabaria explodindo aquela casa inteira.
Ev
Subi assim que vi Justin entrar no escritorio de Paulina, tomei um banho e arrumei as coisas no quarto caso ela tentasse entrar, dei uma ultima olhada e parecia convincente, sai do quarto e vendo que minha tia ja tinha ido embora. Respirei fundo e fui para o unico lugar que queria estar nesse momento.
O quarto dele estava na penumbra, a janela entreaberta deixava o vento brincar com as cortinas, e o mundo lá fora parecia tão distante quanto tudo que eu queria ignorar agora. Me esgueirei por entre a porta com o coração acelerado, mas não era medo de ser pega — era o jeito que ele me olhava.
Justin estava sentado na beira da cama, cotovelos nos joelhos, cabeça baixa. Quando me viu, sorriu… mas era um sorriso diferente. Forçado, talvez. Ou talvez eu estivesse ficando paranoica.
“Tranque a porta”, ele murmurou. A voz baixa, grave, me arrepiando inteira.
Obedeci, e no segundo seguinte ele já estava de pé, vindo até mim. O beijo dele era urgente, como se ele tivesse passado dias sem me tocar. Suas mãos me puxaram pela cintura, e meu corpo respondeu antes da minha cabeça entender qualquer coisa.
Eu me perdi ali por uns segundos — no calor da boca dele contra meu pescoço, nas mãos que deslizavam sob minha blusa, nos gemidos contidos que escapavam entre beijos longos demais pra serem casuais. O jeito que ele me deitou na cama, com delicadeza e fome ao mesmo tempo, me fez esquecer do mundo.
Mas não da sensação.
Aquela sensação estranha de que ele estava aqui… mas ao mesmo tempo, não estava.
Os olhos dele me encaravam como se quisessem decorar cada traço do meu rosto. Ele me beijava como se fosse a última vez. E eu não queria pensar nisso. Mas pensei.
Ele estava me tocando devagar agora, as mãos explorando meu corpo como quem se despede em silêncio. Os sussurros dele no meu ouvido soavam como promessas que ele não podia cumprir.
“Ev…” ele disse contra minha pele, como se meu nome doesse.
A forma como ele segurou meu rosto enquanto me penetrava… foi intensa. Emocional. Diferente. Como se ele estivesse tentando me dizer algo sem palavras. Eu me prendi ao pescoço dele, respirei fundo, e lutei contra as lágrimas. Que droga. Eu não queria chorar agora. Mas meu coração estava gritando que tinha algo errado.
Justin
Eu a observei em silêncio por um tempo, como se quisesse memorizar cada detalhe do seu rosto à meia-luz. Ev estava ali, deitada ao meu lado, com aquele olhar curioso, como se já soubesse... como se pudesse sentir que algo dentro de mim estava desmoronando.
"Você tá diferente hoje", ela sussurrou, os dedos deslizando devagar pelo meu peito, traçando caminhos invisíveis que me arrepiavam.
Eu queria responder, mas engoli as palavras. Não dava pra estragar o momento. Não ainda.
Então beijei sua mão. Depois seu ombro. Depois seu pescoço. Cada toque era um pedido de desculpa. Cada beijo, uma despedida disfarçada. E quando nossos corpos finalmente se encontraram, foi com uma urgência crua, faminta, como se a gente estivesse tentando apagar o tempo. Ou pelo menos atrasar o fim.
Ela se arqueou sob mim, e eu gravei a imagem — os olhos fechados, os lábios entreabertos, o corpo se entregando sem medo. Me agarrei a cada suspiro dela como se fosse ar. Como se eu fosse morrer logo depois. E de certa forma... eu ia. Não o corpo. Mas a parte de mim que só existia com ela.
"Justin..." ela disse contra minha boca, quase implorando, quase chorando. Eu a puxei mais pra perto, como se pudesse fundir nossos corpos, como se a intensidade do agora pudesse consertar o amanhã.
Mas não podia.
E eu sabia.
Ela tremia nos meus braços, e eu desejei que aquilo durasse mais. Que a noite congelasse em volta da gente. Que eu não precisasse quebrar o mundo dela logo depois de fazê-la voar.
Mas o relógio era cruel.
O resto da noite parecia coberto por uma névoa densa — não do lado de fora, mas entre nós. Havia algo no ar, uma sensação indefinida, como se o mundo estivesse prendendo a respiração à espera de algo inevitável. E mesmo assim, de algum jeito estranho, havia também um tipo de silêncio reconfortante entre nós. O que tínhamos — seja lá o que fosse — congelava tudo ao redor. Era como estar em outro tempo, outra dimensão.
— Pronta pra festa? — perguntei, puxando o cobertor sobre nós dois, como se aquilo pudesse proteger mais do que apenas nossos corpos.
Ela se virou na cama, me olhando com os olhos semicerrados de cansaço e resistência.
— Você sabe que eu não quero ir. Essa festa é um saco. Não entendo por que Paulina insiste tanto nisso. Se ela quer tanto se aproximar dos Matos... então que ela mesma case com o Nacho.
Tive que desviar o olhar. As palavras dela cutucaram uma ferida que ainda latejava em mim desde a conversa com Paulina. A mulher não jogava palavras ao vento — ela lançava lâminas.
— Esse é o futuro que os Lancaster estão destinados a ter — murmurei, mais para mim do que para ela. E a sensação ruim voltou a rasgar meu peito como um sussurro que não queria calar.
— Não. Isso não vem do meu tio — ela rebateu, firme. — Gianni sempre priorizou a família. Sempre falou sobre respeito, lealdade... Essa ambição doentia é dela, só dela.
E ela tinha razão. Gianni sempre me deu conselhos sinceros sobre o que significava ser leal, sobre o peso de se equilibrar entre o trabalho e a vida pessoal. “Quando tiver sua própria família, Justin, você vai entender. O segredo está em saber dividir sem se partir.” Ele dizia isso com os olhos de quem já tinha errado — e aprendido.
— Você vai amanhã, né? — A voz dela quebrou meu devaneio. Havia um brilho esperançoso nos olhos dela. — Não vai me deixar sozinha naquele ninho de cobras.
Assenti, tocando levemente a mão dela.
— É pra isso que eu estou aqui. Pra ser seu cachorrinho de guarda.
— Engraçadinho — ela revirou os olhos, mas sorriu de leve. — Quando a gente voltar daquela festa, eu vou começar a arrumar minhas coisas. Não fico mais um dia aqui.
Ela se recostou na cabeceira da cama, olhando para o teto, como quem busca forças no vazio.
— Sei que isso talvez vá te prejudicar, e eu odeio isso. Mas eu cheguei no meu limite. Não consigo mais lidar com essa pressão, essa manipulação. Se eu tiver que ir pra bem longe dela, dos meus pais, de tudo o que me liga a essa vida... eu vou.
Fiquei olhando pra ela em silêncio. Havia uma força cansada ali, uma coragem machucada, mas viva. Me aproximei, toquei seu rosto e encostei meus lábios nos dela num selinho demorado, mais íntimo do que qualquer beijo profundo. Depois a abracei, desejando que aquele momento fosse eterno.
Eu não sei se amanhã o sol vai brilhar, se vai chover, ou se o mundo vai acabar com um meteoro despencando do céu. Mas sei que o tempo ao lado dela está com os minutos contados.
E a única coisa que eu queria... era que o dia demorasse pra nascer.
Porque eu não quero — de jeito nenhum — que a gente perca o que somos.
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