We Are - Capitulo 20
Justin
O dia amanheceu seco. O sol brilhava lá fora, mas não era um brilho bonito. Era um sol escaldante, daqueles que já anunciam que o dia vai ser uma merda.
— Que cara feia é essa? Tá com fome? — Ev perguntou, me tirando dos pensamentos.
Os últimos dias tinham sido os melhores da minha vida. Mas eu nem me permiti comemorar. Porque, no fundo, eu sabia que o fim estava perto. E que algo ruim estava prestes a acontecer.
— Tô faminto — respondi, subindo em cima dela. Ela começou a rir quando encostei a barba por fazer no pescoço dela. — Mas preciso te levar pro salão. Se a gente sair agora, ainda dá tempo de comer alguma coisa antes.
— Eu não quero ir. Já falei que posso sumir do mapa... e você vem comigo.
— A gente não tá numa novela mexicana.
— Parece até que você quer que eu vá pra esse noivado.
— Não. — Todo o humor sumiu do meu corpo. — Eu não quero.
— Então foge comigo. — Ela sorriu, como se fosse fácil.
— Eu prometo que isso tudo vai acabar um dia. Eu sou seu.
— E eu sou sua. Ninguém vai mudar isso.
Antes que eu pudesse responder, a campainha tocou. Olhamos juntos para a tela das câmeras de segurança.
— Tá esperando alguma coisa? — me levantei pra verificar melhor.
— Não que eu saiba... Deve ser algo da minha tia. Vou ver o que é.
Ev
Peguei a caixa grande e joguei no sofá, já imaginando o que era: o tal vestido que o Nacho quer que eu use no aniversário dele hoje. Passei no banheiro e me encarei no espelho. Meu cabelo estava uma bagunça, consequência dos dias em que eu e Justin esquecemos do mundo e criamos o nosso próprio.
A lembrança veio como um sussurro suave, misturado ao perfume que ele usava e que ainda parecia grudado na minha pele.
A noite tinha sido silenciosa — mas um silêncio bom, daqueles que abraçam. Eu estava deitada no peito dele, sentindo os dedos passearem devagar pela minha cintura, como se desenhassem mapas invisíveis só nossos. A janela entreaberta deixava o vento frio invadir o quarto, mas os lençóis estavam quentes — e o calor dele, ainda mais.
Ele afundou o rosto no meu cabelo e me apertou contra o peito, como se quisesse guardar aquele momento dentro da pele. Ficamos assim, apenas existindo um no outro.
— Você faz sentido pra mim — ele disse, com a voz rouca, como se o pensamento tivesse escapado sem querer.
Meu coração parou por um instante. Um arrepio percorreu minha espinha, e quando levantei o olhar, ele estava me encarando com uma intensidade que me desarmou.
— Você tá falando sério? — sussurrei.
— Nunca falei tão sério na vida. — Ele levou a mão ao meu rosto, acariciando minha bochecha com o polegar. — Você me entende até quando eu não sei me explicar. Quando tudo pesa, quando o mundo desaba... você é o que me ancora. Você faz sentido pra mim, Ev.
Eu queria responder. Dizer que ele também era tudo isso pra mim. Mas um nó na garganta travou qualquer palavra.
Ele me beijou devagar. Um beijo sem pressa, cheio de promessas silenciosas. A ponta do nariz dele roçou o meu, e o toque dos nossos corpos era terno, íntimo — como se a gente pertencesse àquele momento, e um ao outro.
— Eu vou estar com você. Pra sempre — ele sussurrou, os lábios ainda colados nos meus.
E ali, entre promessas e toques carregados de carinho, eu acreditei. Com todo o meu coração.
As marcas no meu pescoço iam demorar a sumir, mas as que Justin deixou no meu coração estavam tatuadas ali pra sempre. E eu queria que aquilo fosse só o começo.
— O que era afinal? — Justin saiu do banho, cheiroso e de cabelo arrumado. Quanto tempo eu tinha ficado ali, perdida nas lembranças?
— O vestido que Nacho quer que eu use hoje à noite.
— Sua tia ligou. Quer que você chegue mais cedo no salão pra tirar umas fotos.
— Quando ela vai entender que eu não vou me casar com ele? Às vezes eu queria ter ido junto com meu... — Parei no meio da frase. Justin veio até mim e tampou minha boca com a mão.
— Nunca mais diz isso. Entendeu? Nunca mais. Pensa nisso como um dia de princesa. Já já tudo isso passa.
— Espero que passe antes que acabe comigo. Eu não aguento mais.
Justin
Passei o dia com ela, indo de um lugar a outro. Nos momentos em que conseguíamos escapar, aproveitávamos cada segundo como se fossem os últimos. Quase fiz ela precisar de uma segunda ida ao salão. Mas depois de algumas horas, lá estava ela: pronta.
Linda. Um vestido tomara que caia off-white com uma saia volumosa que a fazia parecer uma princesa. A maquiagem era simples, mas o batom vermelho marcante... Ela estava deslumbrante.
— Assim que eu conseguir fugir dessa festa, você vai me levar no McDonald’s.
— Sim, senhora.
— E depois vai arrancar esse vestido de mim, pra eu tacar fogo nele.
— Sim, senhora — segurei o riso. — Algo mais que a senhorita deseja?
— Tá tirando com a minha cara?
— Eu? Claro que não, senhorita. Sou seu segurança, estou aqui apenas para garantir que esteja segura.
— Engraçadinho...
Ela revirou os olhos, tentando não rir. Mas seu sorriso morreu quando percebemos que havíamos chegado à mansão dos Matos.
— Chegamos — falei, encarando ela, tentando adivinhar o que passava pela cabeça dela.
Antes que eu pudesse reagir, Nacho apareceu e abriu a porta do passageiro, estendendo a mão.
— Você está linda. Que bom que usou o presente. Tenho muitos mais.
— Eu não faço questão. — Ela ignorou a mão dele e desceu do carro, passando direto.
— Sua tia está te esperando lá dentro. O segurança pode ficar aqui fora.
— Eu sou pago pra ficar com ela o tempo todo. Tenho o contrato em PDF se quiser conferir.
— Aqui ela não corre perigo. Além disso, os seguranças dos convidados precisam assinar um termo de confidencialidade. Você sabe... pra evitar vazamentos de informações pra outras famílias.
Famílias. Ev não fazia ideia do que aquilo realmente significava. Mas eu sabia.
— Tudo bem. Eu assino e já te encontro lá dentro.
— Posso ir junto, ainda não chegou ninguém.
— Vai ser rápido. Me espera lá.
— Tudo bem. Mas seja rápido.
Nacho saiu falando algo que ela claramente ignorou. Um dos capangas me acompanhou até uma sala lateral.
— O que eu preciso assinar?
Uma luz vermelha acendeu. No canto da sala, o pai de Nacho me observava com um sorriso frio. Quase psicótico.
— Uma pena você ser filho do Jeremy. Pattie tem um péssimo gosto.
— O que você disse?
O mundo parou. E, no segundo seguinte, tudo escureceu depois de sentir a pancada na nuca.
Ev
A festa já havia começado, e Justin ainda não tinha voltado. A impaciência começava a tomar conta de mim.
— O que você tanto olha pra porta? — minha tia apareceu na minha frente, bloqueando minha visão.
— Estou procurando o Justin. Ele já devia ter voltado.
— Se eu conheço bem aquele rapaz, deve ter esbarrado com Helena. Com certeza estão por aí aproveitando a festa.
— É... mas você não conhece ele.
— Vamos parar com esse mau humor? Hoje é um dia de festa, de celebração.
— A existência do Nacho só importa pra ele, tia.
— Querida, essa festa não é só pelo aniversário do Nacho e você sabe.
— Mas é o aniversário dele...
Antes que ela respondesse, as luzes se intensificaram. Nacho surgiu no palco montado no centro do salão e deu leves batidinhas no microfone. A música parou, e todos os olhares se voltaram para ele.
— Boa noite, pessoal! Muito obrigado por estarem aqui esta noite. A festa vai continuar, eu prometo. Mas antes, quero compartilhar uma novidade com vocês. Além de comemorar meu aniversário, esta noite marca um novo capítulo para nossas famílias: o meu noivado com Ev Lancaster.
— É o quê? — Me virei, encarando Paulina, que sorria como se o anúncio fosse uma surpresa encantadora.
— Seja uma mulher madura — ela murmurou. — Não me envergonhe esta noite.
— Você já faz isso por nós duas! Eu já disse que não vou me casar com ele.
— Sim, você vai. Você não tem futuro, minha querida. Apenas aceite o que eu consegui para sua vida. Você devia me agradecer.
— Cadê o Justin? Eu vou embora dessa festa.
Tentei me afastar, mas senti Nacho se aproximar por trás. Ele sussurrou, com a voz baixa e ameaçadora:
— Se quiser que seu segurança continue vivo, é melhor vir até o palco comigo... e dar o seu melhor sorriso.
Virei para encará-lo. O medo começou a me consumir de dentro pra fora.
— Nacho... não faz isso comigo.
— Eu te disse desde o começo, Ev. Eu vou te dar toda a felicidade do mundo.
— Eu não te amo. Por favor, não me obriga a fazer isso...
— Eu tentei ser gentil. Mas se quer dificultar, você não me deixa escolha.
O que veio a seguir passou como um borrão. Os flashes das câmeras ofuscavam minha visão, quase como se pudessem apagar a realidade cruel que me cercava. O pai de Nacho e minha tia se abraçavam, radiantes. Nacho me envolvia pela cintura, sussurrando que eu acabaria me acostumando com tudo aquilo.
— Bem-vinda à família, querida. Você vai ver como essa união será benéfica para os Matos e os Lancaster. Quando a mídia souber, será ainda melhor — Simone Matos, o pai de Nacho, disse com um sorriso calculado ao lado do filho.
— Onde está o Justin? Eu vi você entrando numa sala com ele. Traga ele aqui agora ou eu faço um escândalo.
— Calma, querida, não precisa disso — Nacho respondeu, chamando um dos seguranças e perguntando sobre o paradeiro de Justin.
— Ele foi embora alguns minutos depois que vocês entraram — o segurança respondeu com frieza.
— Mentira! Ele não iria embora. Aonde ele está? Me fala!
— É verdade, senhorita. Ele me entregou as chaves do carro... e acho que essas são as da sua casa — disse, estendendo um molho de chaves.
Olhei em volta, procurando por Justin, meu coração em descompasso.
— Acho que ele não aguentou o glamour da mansão. Talvez não tenha se sentido apto a ser um segurança nível Matos — Nacho riu, debochado.
— Mentira! Ele não iria embora assim. O que vocês fizeram?! FALA! — empurrei Simone, que sequer se mexeu.
— Nacho, contenha sua noiva. As pessoas estão olhando — disse Simone, entediado.
— É sério. Ele foi embora — insistiu o segurança, me mostrando o vídeo de uma câmera de segurança.
A gravação mostrava Justin saindo pela mesma porta por onde havíamos entrado. Ele estendeu a mão, chamando um táxi, e partiu... sem olhar para trás.
— Acho até bom ele ter ido. Agora que vai morar aqui, com seu marido, não vai mais precisar voltar pra sua antiga casa. Muito menos de um segurança desqualificado como ele — acrescentou Simone.
— Exatamente. Aqui, você estará protegida. Tenho seguranças que já trabalharam com presidentes — disse Nacho, como se isso justificasse tudo.
Nacho segurou minha mão, como se isso selasse nosso destino. Mas o zumbido nos meus ouvidos era o sinal de que nada estava bem.
Justin disse que ficaria.
E ele simplesmente... foi embora.
Justin
Entrei no bar e Domenico levantou assustado assim que me viu naquele estado.
— Cara, o que aconteceu com você? — Ele correu até mim, me segurando pelos ombros, e me ajudou a entrar no escritório. Com cuidado, me deitou no sofá.
— O pai do Nacho já sabe de tudo. Ele se aproveitou do fato de eu estar no território deles. Têm um plano pra forçar a Ev a se casar com o Nacho... pra Paulina ganhar controle sobre o sobrenome dos Gianni, que hoje pertence só a ela.
— E como eles te encontraram? E te deixaram assim?
— Levei a Ev pro tal “aniversário”. Quando chegamos lá, deram um jeito de nos separar. Um dos capangas me acertou na nuca. Quando acordei, já tava todo arrebentado.
— Justin, a gente tem que sair daqui. Esquece plano, esquece vingança. Vou ligar pro Ryan agora, pedir pra tirar a gente daqui.
— Eu não posso. Não posso ir embora e deixar ela aqui.
— Justin, ela tá segura... por enquanto. Mas a gente vai morrer se ficar. É melhor sumir agora e voltar pra buscar ela e a Kaia depois. Com estrutura. Com aliados. Vivos.
Domenico tinha razão. Mas o problema é que meu coração não queria saber de lógica. Ele só gritava o nome dela.
Horas depois, a dor ainda latejava em cada parte do meu corpo. Eu tinha quase certeza de que aqueles canalhas quebraram meu nariz e, no mínimo, umas três costelas. A mente rodava, procurando uma saída, um plano qualquer que fizesse sentido, qualquer coisa que pudesse tirar a gente dali com vida.
— Já falei com o Ryan. O jatinho vai buscar a gente na fronteira.
— Se a gente levar a Ev agora, eles não vão conseguir ir atrás dela.
— Justin, esquece isso por agora. Sério. Você mal consegue respirar, e eu ainda tô me recuperando do que fizeram comigo. Assim que a gente chegar em casa e colocar as ideias no lugar, a gente pensa num jeito de tirá-las daqui. Mas agora... é suicídio.
A tempestade que se formava lá fora parecia o toque final num dia que já tinha começado errado. O vento uivava, e o frio se infiltrava por debaixo da pele.
— O Ryan mandou um médico com o piloto. Ele não vai conseguir fazer muito no avião, mas pode dar uma ajuda.
Não consegui responder. Só tinha forças pra respirar fundo... e prender o ar quando sentia a costela se mover — a dor vinha em ondas, como maré brava tentando me afogar.
Foi então que ouvimos um barulho do lado de fora. Um grito agudo, alto, desesperado. Chamando por Domenico.
— Puts... É a Ev — ele murmurou, empalidecendo. Começou a andar de um lado pro outro, sem saber o que fazer.
— Não deixa ela entrar — sussurrei, tonto. — Ela não pode me ver assim. Não agora... não desse jeito.
Tentei levantar. A dor me atravessou como uma faca quente. E então... tudo ficou preto por um instante.
— Você não se mexe. Eu vou dar um jeito... — Domenico disse, e saiu apressado da sala.
Ev
Com frio, o vestido — já sem nenhum vestígio de glamour — estava completamente encharcado. Carregava apenas um dos saltos nas mãos; o outro, perdi quando corri até o bar do Domenico. Pulei a cerca dos fundos, como sempre, e entrei pela porta que ele insistia em deixar destrancada.
— DOMENICO! — gritei com o resto de força que ainda me restava, tentando abrir a porta do escritório. Fui impedida. Ele a abriu apenas uma fresta.
— Oi… achei que tinha uma festa hoje.
— Eu preciso falar com a Kaia — tentei empurrar a porta, mas ele bloqueou minha passagem.
— Ela não está aqui. Nem apareceu. Achei que ia ficar com você na festa.
— Por que você não me deixa entrar? — larguei o sapato no chão e me abracei, sentindo um frio avassalador me atravessar. — Domenico… você está traindo ela?
— O quê? Tá me achando com cara de quê? Eu só não tava esperando visitas. Liga pra ela ou tenta na casa dela. Aposto que tá lá. Eu preciso dormir.
Ele fechou a porta. Me afastei, afundando no banco do bar. Respirei fundo algumas vezes, tentando colocar meus pensamentos em ordem. Liguei para a Kaia, mas todas as chamadas foram recusadas. Quando já pensava em procurar um hotel para passar a noite, Domenico saiu do escritório. E por um instante, vi a silhueta de alguém deitado no sofá.
— O Justin está aqui? — levantei de repente.
— O quê? O que você ainda tá fazendo aqui?
— Domenico, vou perguntar pela última vez. Ele tá no escritório?
— Ev… falo isso porque gosto de você. Agora não é o momento. Amanhã vocês conversam.
— Amanhã?! Ele me largou naquela festa idiota! Sozinha, sem proteção! Ele disse que estaria comigo… e simplesmente me abandonou. Ele não acha que me deve explicações? Pois eu vou falar com ele, sim. E vai ser agora!
Corri em direção à porta, mas Justin foi mais rápido e trancou a porta. Ouvi os passos de Domenico saindo do bar, o som do carro se afastando. Meu coração começava a doer de um jeito que me deixava sem ação.
— Você devia estar na sua festa de noivado — a voz de Justin veio do outro lado da porta. Pelo tom, parecia estar sentado no chão, encostado nela. Eu me sentei também, do lado de fora, apoiando as costas contra a madeira fria.
— E você devia estar lá comigo… já que sabe que eu nunca teria aceitado aquilo. Mas você não estava.
— Olha, eu não sei por que você tá tão chateada...
— É isso que você acha? Que eu tô chateada? Eu não tô chateada, Justin. Eu tô com medo.
— Ev… — ele murmurou.
— Fala, Justin.
— Falar o quê?
— Diz que você não quer mais ficar comigo.
— O quê? — ele fez uma pausa longa e pesada, que só me irritou mais.
— É por isso que você tá assim, né? Você decidiu que não quer mais estar comigo.
— Você não entende…
— Quer saber? Pode parar. Eu sei como isso funciona. Você quer ir embora.
— Eu não quero ir embora… é que… eu não quero te prender.
— Não faz isso. Não finge que tá fazendo isso por mim. Porque eu não quero isso. Eu quero você. Ter algo com o Nacho nunca foi uma opção. Você sabe disso. Eu te falei isso mil vezes.
— Tem razão — ele disse, depois de outra pausa. — Não é você, sou eu. Me desculpa. Eu te amo muito.
Meu coração desabou. Nada daquilo fazia sentido. Eu não fazia mais sentido. E, sentada no chão, ouvindo sua voz abafada atrás da porta, senti o fim de algo que eu sabia que deixaria marcas profundas.
— Eu não acredito mais nisso… porque você disse pra sempre. Você disse! E agora tá desistindo?
— Não. Eu ainda tô aqui. Sempre vou estar do seu lado.
— Não! — gritei, a voz falhando. — Você tá literalmente me deixando, Justin. — Sussurrei seu nome como se ele me ferisse. — Eu te contei tudo… você me conhece, eu...
— Eu sei.
— Então o que aconteceu? — comecei a tremer. Um desespero insuportável me invadiu só de imaginar Justin indo embora de vez.
— Ok… tá bom. Você não é assim. Você não faria isso comigo, né? Porque… porque eu sou a sua Ev… e você — respirei fundo, tentando conter o soluço — você é o meu Justin. Você não machucaria alguém que ama desse jeito.
— Eu não quero te machucar — ele disse, com a voz embargada. Minha vontade era arrebentar aquela porta com um chute.
— O quê? — dei um soco na madeira, mas tudo o que consegui foi uma dor latejante na mão. — Você disse que sempre ia me amar. Hoje, amanhã, pra sempre. Disse que eu fazia sentido pra você. Você disse isso! Foi você quem falou!
— Eu falei sério.
— Então… o que mudou? Me diz o que eu fiz de errado. Por favor.
— Não foi você. Você não fez nada. Eu sou o problema. Eu prometo.
— Você promete? — entre lágrimas, uma risada irônica e amarga escapou dos meus lábios. — Você ainda tá fazendo promessas, Justin? Eu odeio promessas. Todo mundo que prometeu algo pra mim mentiu. E você… você era a pessoa que não devia mentir pra mim.
— Mas tudo o que eu falei é verdade, sim… eu só…
— Só o quê?
— Eu não tenho espaço pra mais ninguém agora.
— Você entende o que tá fazendo? Você tá dizendo que acabou? Que nossas conversas, nossos momentos, os planos… tudo isso não existe mais?
Ele demorou para responder. E, quando finalmente falou, foi quase num sussurro:
— Sim.
— Você vai se arrepender disso. Vai perceber que não é essa pessoa. Mas vai ser tarde demais. Porque se está terminando… é porque acabou.
A essa altura, eu não sabia mais o que eram minhas súplicas, o que eram lágrimas, o que era raiva ou dor. Só sabia que eu queria ele de volta.
— Por favor, Justin… não faz isso.
Fiquei ali. Deitada no chão. Chorando até a alma parecer sair do meu corpo. E foi só depois de uns cinco minutos, quando percebi que ele não diria mais nada, que caiu a ficha.
Ele não abriria a porta.
Ele não responderia.
E ele… não voltaria.
Saí do bar e pulei o muro de volta. Corri até a esquina e fiquei olhando para o lugar de longe, torcendo para que ele se arrependesse. Que viesse atrás de mim.
Mas a volta da chuva trouxe a realidade.
E eu saí dali… deixando para trás meu coração.
E o resto de mim… que ele terminou de destruir.
Horas depois
Justin
A porta dos fundos se abriu com um estrondo abafado. Domenico voltou correndo, seguido de um homem alto de olhar sério o medico da familia, e ao lado dele o topete igual o meu, a cor dos olhos iguais aos meus, não tão bonito, mas com uma presença que chama a atenção das mulheres — Ryan, meu irmão. O medico me deu um oi rápido, carregando uma maleta e um semblante carregado de pressa.
— Droga, olha o estado dele — O medico se ajoelhou ao meu lado, abrindo a maleta e examinando meu rosto com rapidez. — Temos que tirar você daqui agora. O jatinho já está pronto, mas a fronteira não vai ficar aberta por muito tempo. Se perdermos a janela, ficamos presos aqui.
— E a Ev? — murmurei, a voz arranhando na garganta como vidro quebrado.
Domenico me olhou por um segundo a mais. O silêncio entre nós dizia tudo que as palavras não conseguiam.
— A gente vai voltar por ela. Juro.
Meus olhos se fecharam por reflexo quando o medico aplicou alguma coisa no meu braço. Um alívio artificial percorreu meu corpo — frio, anestesiante. Mas não era o suficiente. Não quando a dor verdadeira não estava nos ossos quebrados... mas no espaço vazio do meu peito.
Fui levado até o carro com a ajuda dos dois. O céu chorava em cima da gente, como se soubesse que algo estava sendo perdido naquela noite. A tempestade castigava a estrada, relâmpagos riscavam o céu enquanto o mundo parecia se desmanchar ao nosso redor. E no fundo... eu desejava que tudo explodisse de vez. Que o carro rodasse. Que tudo acabasse logo. Porque viver sem ela... não fazia sentido algum.
Deitado no banco de trás, entrei num estado de meio consciência. O rosto dela vinha em flashes — o sorriso de canto, o jeito como o nariz dela enrugava quando ficava nervosa, o modo como dizia meu nome.
O nome que me mantinha vivo.
A mulher que eu estava abandonando.
“Prometi que não ia te deixar. Prometi que ficaria com você até o fim...”
Mas agora eu estava indo embora. Fugindo. Fraco. Derrotado.
Uma parte de mim morreu naquele momento. Talvez a mais importante. E o que restou, não sei se vai aguentar muito tempo.
— A gente vai voltar por ela, Justin — ouvi a voz de Domenico ao longe, como um eco distante. — Mas agora... a gente precisa sobreviver.
Engoli seco. A chuva batia contra o vidro como um lamento.
Ev
Atravessei a porta de casa e, num instante, aquele lugar — que um dia fora meu refúgio — se transfigurou num campo de tortura emocional. Cada canto, cada detalhe, cada vestígio carregava a marca dele. Tudo o que antes pulsava com vida por causa da presença dele, agora gritava sua ausência. E era essa ausência que me dilacerava em silêncio.
— Garota, você quer me matar do coração?! — exclamou Kaia, surgindo no alto da escada como uma diva pronta para o tapete vermelho. Ela desceu correndo ao me ver ali, desolada.
— O que você tá fazendo aqui?
— Cheguei na festa, mas o Nacho disse que você tinha desaparecido. Vim te procurar...
— Ele me deixou — confessei, por fim, soltando as palavras que queimavam minha garganta como ácido.
— O quê? Quem?
— Ele... Ele desistiu. Me deixou. Deixou... deixou nós dois.
Kaia permaneceu em silêncio por alguns segundos. Seus olhos percorreram o ambiente e, então, percebi o momento exato em que a ficha caiu. Ela entendeu.
— Pra onde ele foi? Por que ele iria embora assim?
— Disse que o problema não era comigo...
— Ah, amiga, me desculpa, mas isso automaticamente torna ele um idiota — respondeu, já puxando o celular da bolsa. — Eu vou resolver isso. Talvez o Domênico consiga enfiar algum juízo naquela cabeça dele.
Fiquei esperando que Kaia dissesse algo, qualquer coisa. Mas o rosto dela perdeu a cor de repente. Seus olhos se voltaram para mim com a mesma incredulidade que agora me sufocava.
— O número foi desativado.
Ela pegou meu celular das minhas mãos trêmulas e tentou ligar para Justin. Pela expressão no rosto dela, percebi que ele havia feito o mesmo: desaparecido do mapa.
— Isso não pode ser verdade... — murmurou ela. — Vamos até o bar dele.
— Eu já fui. Eles estavam lá... Domênico saiu, mas Justin ficou trancado no escritório. Ele sequer me deu a chance de vê-lo, nem por um segundo, nem para dizer adeus.
— Talvez... talvez ele tenha se sentido ameaçado — disse Kaia, me olhando com uma seriedade repentina. — Você estava prestes a ficar noiva. Talvez ele não quisesse viver como o outro. Isso só dá certo em filmes.
— Mas ele sabia... Ele sabia que eu nunca aceitaria isso. Ele sabe que eu o amo.
— Ama? — ela riu, amarga. — E que futuro você teria com um segurança, amiga?
— Kaia, você tá ficando louca? Tá falando igual à minha tia.
— Talvez porque ela esteja certa. Amiga, é hora de acordar pra vida. Aproveita as oportunidades que ela te dá — disse ela, segurando minha mão com uma falsa ternura. — Além disso, você está usando um anel de noivado. Você meio que já está nessa.
Deixei Kaia falando sozinha. Aquilo tudo já estava começando a soar como delírio. Subi até o quarto de Justin. Lá, tudo permanecia exatamente como ele deixou. As roupas. Os acessórios. Até a bagunça da noite anterior — nossos risos, nossos toques, nossas promessas não ditas. Tudo estava ali. Tudo, menos ele.
E foi nesse silêncio ensurdecedor que a verdade, enfim, me abraçou com braços frios e cruéis: ele realmente havia partido. Sem despedidas. Sem olhar para trás. Ele levou consigo não apenas o que éramos, mas tudo o que poderíamos ter sido.
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