We Are - Capitulo 6


 Justin

Acordei com o som de um alerta no celular. A câmera tinha detectado um movimento suspeito. Ainda meio grogue, me sentei na cama, já imaginando o que podia ser. Desbloqueei o aparelho e abri a notificação. Era um clipe de cinco segundos: Ev subindo na banqueta da cozinha, abrindo o armário e caindo no chão.

Levantei correndo e fui até a cozinha. Lá estava ela, completamente descabelada, usando apenas um cropped e uma calcinha, esborrachada no chão de forma desajeitada.

— Você tá tentando se matar? — perguntei, meio atônito.

Ela olhou para cima, os olhos arregalados, e começou a rir. Foi um riso curto, seguido de um suspiro que logo deu lugar a lágrimas.

— Eu não te chamei — respondeu, sentando-se no chão e passando a mão pela nuca.

— Eu sei, mas você me acordou com esse barulho todo. O que tá fazendo?

— Queria sorvete.

Foi só então que me dei conta de que eu também estava só de cueca.

— Sorvete? Às três da manhã?

— Toda hora é hora de tomar sorvete — disse, tentando se levantar. Cambaleou, e eu percebi que ela ainda estava bêbada.

Ela afastou minhas mãos quando tentei ajudá-la e, tropeçando, entrou na despensa.

— Pode parar de olhar para a minha bunda — falou, de repente, se virando e me pegando de surpresa. Cruzei os braços e fingi uma tosse, tentando disfarçar.

— O quê?

Ev saiu da despensa segurando alguns ingredientes.

— O que vai fazer?

— Uma banana split. Meu tio fazia a melhor do mundo. — Ela respirou fundo, mas eu não consegui conter o riso.

— E onde entra a farinha, azeitona e o shoyu nisso tudo? — perguntei, achando hilária a cena dela encarando os ingredientes com uma expressão confusa.

— Que droga, viu — murmurou, deixando as coisas no balcão e indo para a sala, onde se jogou no enorme sofá.

— O que foi? — me aproximei e me sentei ao lado dela, agradecendo mentalmente por não haver câmeras na sala.

— Nada. Você não é pago pra me ouvir.

— Eu ouço você cantar a mesma música do Usher todos os dias. Acho que deveria pedir um aumento então.

Ela soltou uma risada curta, mas logo parou.

— Viver aqui sempre me deu pesadelos. Depois que meu tio se foi, só vinha em datas comemorativas, as que ele não gostava. — O tom dela ficou mais pesado ao mencionar Gianni. — Ou nas festas idiotas que minha tia dá, como essa que a gente vai em dois dias. Sempre dormi naquele quarto porque ela o reservava pra mim, mas, desde que ele morreu, vir aqui virou uma espécie de tortura. Eu estava tão brava com meus pais que nem pensei nisso, e esqueci ainda mais depois que você apareceu.

Ela me olhou, e eu, sem saber o que dizer, puxei suas pernas para o meu colo. Ela suspirou e colocou as mãos sobre a barriga.

— Eu odeio pesadelos. Acordei com aquela mesma sensação de sufocamento de antes. Tentei voltar a dormir, mas ficar naquele quarto estava me dando agonia.

Meu peito apertou. Eu não deveria estar ali, não dessa forma. Ela não merecia isso. Brincar com os sentimentos dela era errado, mas, droga, eu me importava. Cada dia mais.

— Esquece isso — ela disse, enxugando as lágrimas e tentando sorrir. — Já, já eu volto ao normal.

— Você não precisa passar por isso sozinha.

— Eu tive que lidar com isso sozinha desde o começo, Justin. Não vai ser agora que vou desmoronar. E outra, não preciso que você tenha pena de mim.

A raiva na voz dela me deixou sem reação. Ev se levantou e começou a subir as escadas, mas parou na metade. Ficou ali, olhando para cima por alguns segundos, antes de se sentar no degrau.

— Eu disse que você já pode ir.

— Você não manda em mim.

— Você trabalha pra mim.

— Ah, é? — subi o primeiro degrau.

— Sim. E se eu te mando ir, você vai.

— E o que mais você vai me mandar fazer?

Ela hesitou. Seus olhos se fixaram nos meus lábios por um instante.

— E-eu...

— É só você pedir — arrisquei, subindo mais dois degraus, até ficar quase na altura dela.


Ev

Ok, eu só podia estar muito bêbada, mas o frio de Portland parecia ter sumido. Justin estava tão perto que o ar ao meu redor ficou mais pesado. Não sabia se queria beijá-lo ou correr dali o mais rápido possível.

— Tudo bem, vamos acabar logo com isso — ele disse, aproximando-se ainda mais.

— O que você vai fazer?

Justin não respondeu. Apenas me pegou no colo e desceu as escadas comigo.

— O que você vai fazer? — insisti, meu coração acelerado. Mil ideias passaram pela minha cabeça, nenhuma delas apropriada. — Justin?

Ele me colocou no sofá, puxou um edredom de trás do sofá e apagou as luzes. Ligou a lareira e, para minha surpresa, deitou-se atrás de mim, cobrindo nós dois.

O perfume dele, misturado ao cheiro do shampoo mentolado, me deixou embrigada.

Justin

Ela estava tremendo. Não sabia dizer se era por conta do frio ou por ter se assustado com meu gesto inesperado. Terminei de me ajeitar e fui conferir se estava bem. Percebi que seus olhos estavam fechados. Ela respirava fundo, lentamente, enquanto esfregava o dedo indicador contra o anelar, num movimento quase hipnótico.

— O que você está fazendo? — perguntei, confuso.

Ela se virou para mim, encaixando-se perfeitamente em meus braços.

— Estou criando uma memória olfativa.

— O que isso quer dizer? — insisti.

Ela abriu os olhos e me olhou com a intensidade que sempre fazia meu coração tropeçar.

— Quando você quer se lembrar de algo que está lendo, rabisca um caderno. Assim, quando quiser se lembrar daquilo, é só pensar nos rabiscos. Quando quiser se lembrar de algum cheiro ou sensação, cria um código. Sempre que quiser se lembrar, é só repetir o código e tudo volta.

Levantei seu queixo, fazendo-a me encarar nos olhos. Ela suspirou, chegando mais perto, seus movimentos calculados e suaves. Ela se remexeu até que seu rosto estivesse colado ao meu. Seus lábios deixaram pequenos rastros, beijos delicados na ponta do meu nariz, nas laterais do meu rosto. Sorriu quando minha barba recém-crescida fez cócegas em sua pele. Ela desceu até minha mandíbula e parou no meu queixo.

— Posso saber por que precisou criar um código para se lembrar do meu cheiro se eu estou aqui o dia todo? — perguntei, minha voz baixa, quase um sussurro.

— Porque eu sei que você vai embora. E, quando for, provavelmente não vai voltar. — Seus olhos, pequenos e sonolentos, encontraram os meus.

— Quem disse que eu vou embora? — Apertei meus braços em volta dela, tentando sufocar a culpa e o incômodo que tomaram conta do meu corpo.

— Tudo que é bom nunca dura para sempre na minha vida. — Sua voz era um sussurro que carregava o peso de experiências amargas.

Ela deixou um beijo no canto da minha boca antes de se aninhar em meu peito. Respirou fundo, fechou os olhos e, em poucos minutos, já havia caído no sono. Fiquei ali, ouvindo sua respiração ritmada, tentando ignorar a promessa não dita que pairava entre nós.

Comentários

  1. Meu Deus que coisa mais fofa do mundo esses dois 😭😭😭
    Que saco, eles são tão fofos juntos 😭😭😭😭

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