We Are - Capitulo 10
Justin
Acordei com o celular tocando. Era uma mensagem de Elena sugerindo que tomássemos café em um hotel super chique da cidade. Aceitei o convite, me levantei e olhei pela janela. O céu estava limpo, com alguns vislumbres de nuvens tentando manchar sua perfeição. O que significava apenas uma coisa: estava muito frio lá fora.
Tomei um banho rápido e vesti meu velho terno preto com camisa branca, sem gravata. Arrumei o cabelo, fui para a cozinha e encontrei tudo limpo e arrumado, exatamente como tinha deixado na noite anterior. Depois da bebedeira que tomei ontem o dia inteiro, misturando várias bebidas, eu nem tive forças para jantar. Simplesmente fui dormir mais cedo. Ev tentou me ajudar, mas tranquei a porta do quarto. Eu precisava evitar qualquer chance de acabarmos dormindo juntos. Ainda tenho muito a descobrir, e estou perdendo completamente o foco.
Pensei em deixar um recado na cozinha, mas então notei um par de pantufas aos pés da escada. Sinal de que Ev tinha saído. Procurei por algum bilhete, mas não encontrei nada. Decidi dar uma olhada no escritório da velha — quem sabe poderia encontrar alguma pista. Mas tudo o que achei foram recibos de compras, todos no nome dela. Nada suspeito, o que, curiosamente, era muito suspeito. Ou Mario estava ficando paranoico, ou ninguém ali realmente tinha a ver com nada.
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— Que bom que veio. — Elena se levantou assim que me viu entrar. Ela estava casual demais para quem tinha me ligado daquele jeito: um vestido preto simples, salto alto, cabelo solto e batom vermelho.
— Que bom que chamou. — Sentei-me de frente para ela.
— Então, o que descobriu até agora?
— Como assim? — Meu coração errou uma batida. Eu estava perdido.
— Nós dois sabemos que a Paulina tem algo a ver com a morte do Gianni.
— Nós sabemos?
— Qual é, Justin. Eu vi o jeito como você grava cada passo dela. Vi suas recomendações. E também sei que a pirralha te contou muita coisa sobre isso. Se nos juntarmos, podemos tirar uma grana preta delas.
— E o que você ganharia com isso? Por que, exatamente, você quer fazer isso?
— Isso não importa agora.
— Como vou te ajudar se você não confia em mim?
— Talvez isso te convença. — Ela se ajeitou na cadeira e, mexendo no celular, me mostrou a foto de um homem. — Esse cara era amante da Paulina. Ele é da Sícilia e matador de aluguel. Depois de ganhar uma grana preta, sumiu do mapa e agora trabalha em um dos cassinos mais cobiçados de Las Vegas. Dizem que tem gente esperando vagas para noites de jogo desde 2016.
Ok, temos um ponto. Acho que essa mulher pode ajudar.
— Então, você vai me ajudar? — cruzou os braços, apertando o decote. — Nessa troca de ajuda, podemos até nos divertir nas horas de descanso.
— Não tão rápido. Você está trabalhando com Paulina para se vingar dela? Por quê?
— Ela tomou o que era meu, e isso não vai sair barato. Quando eu recuperar o que é meu e colocar essa mulher na cadeia, minha missão estará cumprida. Gianni finalmente poderá descansar em paz.
— O que Gianni tem a ver com sua vingança contra Paulina?
— Gianni era meu pai. Aquela mulher deu o golpe da barriga nele, e minha mãe morreu quando eu nasci. Acho que foi de desgosto.
— Gianni tem uma filha?
— Sim, mas o brilho todo sempre foi para a sobrinha querida. Essa mulher nem sabe que a fortuna que está no nome dela vale metade de Portland. — Vi Elena olhar para trás e um sorriso vingativo surgir em seu rosto. — E falando nela…
Respirei fundo antes de me virar e ter certeza de que uma Ev muito desconfiada nos encarava.
— Nós podemos tornar isso divertido ou torturante, você escolhe. — Elena me olhou. Eu a encarei, ponderando se tudo isso realmente valia a pena ou não.
Ev
Decidi sair com Kaia depois do fiasco que foi ontem à noite. Achei que estaríamos mais conectados, mas ele simplesmente foi dormir e ainda trancou a porta do quarto.
— Tem certeza que ele não é gay? — Kaia perguntou, estacionando o carro em frente ao hotel onde sempre tomávamos café quando queríamos parecer duas executivas marcando uma reunião de negócios.
— Sim, Kaia, eu tenho certeza. Eu só achei estranho ele ter… — Minha frase morreu no ar quando avistei Elena me olhando. Ela estava conversando com alguém, que descobri ser Justin assim que ele se virou, sua expressão denunciando o choque ao me ver.
— Quer ir embora? — Kaia sussurrou, parecendo um verdadeiro cão de guarda.
— Não, esse é nosso lugar.
Recuperei minha postura e continuei andando. Quando estava quase passando pela mesa deles, ouvi Elena se levantar e tocar meu ombro, acompanhado de um “não” meio engasgado de Justin.
— Oi, florzinha! Que bom te ver aqui. Tudo certo para a festa? — Me virei, olhando-a de cima a baixo.
— Sim! - Falei seco olhando para a mão dela que segurava meu ombro e soltou assim que voltei a olhar para ela.
— Que ótimo. Sua tia está empenhada em deixar tudo perfeito. Pelo visto, você já está quase pronta para o evento. — Ela sorriu.
— Sim. E você, não vai começar a se arrumar? — Levantei as sobrancelhas, tentando parecer inocente.
— Ah, claro! Sim, mas antes estava passando um ótimo tempo com meu novo amigo Justin. — Ela riu, mexendo no cabelo. — Ele é ótimo com as palavras.
— Sério? Geralmente ele não fala muito.
— Sim, porque ele está ocupado fazendo outras coisas com a boca. — Kaia falou, parada atrás de mim, fazendo Justin se levantar imediatamente.
— Você precisa de algo? Acordei e você não estava em casa. — Ele perguntou, tentando soar tranquilo.
— Sim, decidi sair um pouco. Mas tudo bem, não preciso de nada, até porque você está ocupado.
— Sim, ele está. Mas não se preocupe, já estávamos de saída. Temos um quarto agendado aqui. — Elena me olhou com aquele sorriso triunfante e pegou sua bolsa.
Encarei Justin, que me olhava como se fosse desmaiar, mas ainda tentava manter uma postura séria.
— Se você não aparecer à noite para me levar à festa, não precisa mais aparecer. — Falei, olhando diretamente em seus olhos para ter certeza de que ele entendia o quanto aquele dia infernal estava me desgastando.
— Tudo bem, querida, não se preocupe. Eu posso chamar um Uber se não conseguirmos chegar a tempo. — Elena disse, passando por mim e puxando Justin.
Ignorei a tentativa dele de falar comigo e fui procurar uma mesa para sentar.
— Eu vou matar essa mulher. — Kaia disse, jogando a bolsa na mesa e se sentando. — E depois vou castrar esse projeto de Ken da Amazon.
Justin
— Precisava mesmo fazer toda essa cena?
— Claro. Ela precisa achar que temos algo, assim não vai estranhar quando estivermos juntos investigando. A não ser... — Ela parou de repente e me encarou.
— O quê? — Perguntei, quase esbarrando nela.
— Você está se envolvendo com a golpista mirim?
— O que ela tem a ver com isso? O foco aqui é a Paulina.
— Olha só, vou te avisar uma coisa: eu não estou aqui pra brincadeiras. Essa garota, envolvida ou não, se estiver perto, vai junto. E se você ousar me atrapalhar...
Ela só podia estar de brincadeira comigo. Não consegui evitar a reação quando minha mão envolveu seu pescoço, trazendo-a para mais perto. Seus olhos se arregalaram, mas eu não recuei.
— Quem vai te avisar sou eu. Eu já entendi o seu joguinho, e quem manda aqui sou eu. Você quer sua vingança? Tudo bem. Mas quem dá as cartas sou eu. Mais uma gracinha dessa, e você vai fazer companhia pra sua mãezinha e pro Gianni. Estamos entendidos?
Soltei-a com um movimento brusco e passei à frente.
— Agora, me mostra logo essas porcarias porque eu não tenho o dia todo.
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Depois de coletar todas as informações, enviei tudo para Domenico e Ryan antes de seguir para casa. Assim que entrei, vi Kaia descendo as escadas. Ela desligou o celular assim que me viu.
— Ela já está pronta? — Perguntei sem rodeios.
— Ainda não... Voltou rápido pra quem tinha tanta coisa pra resolver.
— Ela disse a que horas vai sair?
— Não. Ela é rápida demais ou você que não aguenta o ritmo?
— Você é insuportável assim sempre ou hoje é meu dia de sorte?
Kaia terminou de descer os últimos degraus, aproximando-se de mim. Era ainda menor que Ev, o que me fez entender de imediato por que Domenico estava tão encantado com ela.
— Escuta aqui. — Sua voz saiu firme. — Ev já passou por muita coisa nessa vida pra vir um merdinha como você e quebrá-la de novo. Eu juro que, se ela derramar uma lágrima por sua causa, vou quebrar meu lindo Louboutin na sua cara. Entendido?
— Entendido. — Mordi a parte interna da bochecha, tentando não arrancá-la dali pelos cabelos. — Mais alguma coisa?
Ela respirou fundo antes de continuar.
— Por favor, não deixa minha amiga sozinha naquele ninho de cobras. Paulina, com uma dose de martíni na mão, acha que pode vender todo mundo em troca de cassinos.
Kaia se afastou, me deixando sozinho com meus pensamentos. Suas palavras ecoavam na minha mente. Talvez fosse mesmo uma boa ideia levar minha arma hoje.
Ev
Respirei umas trezentas vezes antes de me encarar no espelho pela última vez. Agora, olhando melhor, o vestido que escolhi já não me agradava tanto. Escolhi pensando no Justin. Pois bem, estou pensando nele agora e só me vêm à cabeça palavras nada elegantes.
Ajustei o vestido preto, longo, com um decote em V profundo que deixava meus seios impecáveis. Nas costas, ele era quase todo nu, com exceção das fitas que se cruzavam em um X, abraçando minha pele. Como o vestido já era marcante, optei por um salto discreto. A maquiagem, em tons de preto e marrom, estava impecável, e o batom vermelho finalizava o look com perfeição. Alguns acessórios dourados completavam a produção.
Eu não gostava das festas da empresa da minha tia. Na verdade, eu as detestava. Mas tinha que admitir: adorava a sensação de me sentir glamorosa e importante nesses eventos. Tirando, claro, o detalhe de que Nacho estaria lá. O mesmo Nacho com quem minha tia insiste em falar de casamento toda vez que o vê. Pensar nisso quase me fez desmaiar. Mas eu estava pronta para enfrentar a noite.
Desci as escadas e parei no último degrau para amarrar os saltos, quando vi Justin surgir. Ele estava impecável. Um terno preto ajustado ao corpo, camisa preta, gravata cinza combinando com o relógio e os sapatos brilhando. O cabelo estava perfeitamente alinhado em um topete recente, provavelmente cortado hoje mesmo. E o perfume... Ah, aquele perfume parecia dançar pelo ambiente, me cercando por completo.
— Está pronta? — Sua voz cortou o silêncio, profunda e firme.
— Sim. — Levantei-me, pegando minha bolsa e passando por ele em direção à porta.
— Será que a gente pode conversar? — Ele insistiu, me seguindo.
— Não temos tempo. Estamos atrasados.
— Ev, espera. Deixa eu explicar sobre a Elena. Ela estava apenas...
— Não. Se você quer dar explicações, que dê para a minha tia. Foi ela quem te contratou. Se você quer sair no horário de trabalho, isso não é problema meu.
Passei direto, caminhando até o carro. Sim, eu estava com raiva. E com razão. Um dia estamos nos amassando no sofá, nos pegando no provador, e no outro ele decide que uma mulher mais "robusta" é melhor para ele? E, claro, faz de mim uma palhaça no processo. Ele escolheu a pessoa errada para brincar.

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