We Are - Capitulo 14


Justin

Se eu soubesse que os convidados seriam Nacho e seu pai, teria dado um jeito de desaparecer daqui.

— Justin, você se certificou de que ela se levantou para se arrumar? — Paulina perguntou, lançando um olhar para o relógio.

— Sim, senhora. Ela deve descer em breve.

Uma Ev extremamente elegante desceu as escadas, vestindo um conjunto de saia e blusa azul, adornado com delicadas flores bordadas. Seu cabelo solto emoldurava o rosto, e a maquiagem leve realçava sua beleza natural. Ela entrou na cozinha com um sorriso discreto, que logo desapareceu ao avistar Nacho.

— A espera valeu a pena — Nacho disse, levantando-se e caminhando até ela. — Você está linda.

Ele sorriu antes de segurar sua mão direita e depositar um beijo demorado sobre ela.

— Quem te convidou? — Ev retrucou, limpando a mão na blusa antes de se virar em minha direção.

— Eu convidei. Hoje é um dia muito especial, querida. Feliz aniversário — Paulina anunciou com doçura.

Paulina começou a acender as velas do bolo, enquanto Ev cruzava os braços, claramente desconfortável. Durante os minutos seguintes, a cena mais patética do mundo aconteceu: Paulina e Nacho cantando parabéns com entusiasmo, enquanto Simone, o pai de Nacho, batia palmas alegremente. Ev permaneceu imóvel, apenas observando a situação. Quando a música finalmente chegou ao fim, todos se sentaram.

— Acho que, por agora, você pode tirar um momento de folga — Simone disse, dirigindo-se a mim. — Caso precisemos dos seus serviços, chamaremos você.

— Ele fica — Ev interveio, seus olhos cravados no homem mais velho.

— Isso é um momento familiar, querida — Nacho tentou argumentar, segurando a mão dela, que logo foi retirada com um movimento brusco.

Então vocês podem voltar outra hora. — Ev olhou seriamente para a tia. — Se ele sair, eu saio também.

— Tudo bem, ele fica — Elena ponderou por um instante antes de apontar para a cadeira ao lado dela. — Sente-se, Justin, por favor.

Simone me encarava enquanto eu tomava meu assento. Isso estava ficando esquisito demais.

— Te trouxe um presente — Nacho disse, levantando-se e indo até a despensa. Voltou em seguida com um buquê de malvas roxas e uma pequena caixa.

— Não precisava.

— Exatamente. Se precisasse, não seria um presente.

Ev pegou o buquê, colocou-o sobre a mesa e abriu a caixa, chamando minha atenção.

— Um anel? — Ela olhou para ele, desconfiada.

— Sim — Nacho respondeu, sorrindo.

— Por quê?

— Porque em breve nos tornaremos um casal, e quero que use esse anel como símbolo do nosso compromisso.

— Espera aí... casal? Do que você está falando?

Antes que aquele palerma pudesse responder, Elena entrou na cozinha carregando uma caixa e algumas sacolas.

— Presentes para a aniversariante.

Olhei de canto e vi que meu plano estava ali, bem no meio dos inúmeros presentes que ela havia recebido.

— O que é essa caixa? — Ev perguntou, curiosa, enquanto se levantava.

Mudei a posição da minha cadeira para ter uma visão mais clara da cena. Ev pegou a caixa de papelão e a abriu, retirando de dentro uma caixa de couro preto, com um brasão dourado em cima e as letras G.L. gravadas.

— Meu Deus... — Ev sussurrou, deixando a caixa de papelão cair no chão antes de voltar para a mesa com a caixa de couro em mãos.

— O que foi, querida? — Paulina se inclinou para tentar enxergar melhor.

— Acho que isso é do meu tio. — Ela colocou a caixa sobre a mesa, fazendo todos, menos eu, arregalarem os olhos.

— Como assim, do Gianni? — Elena se levantou e foi até a sobrinha.

Ev abriu a caixa e puxou uma carta de dentro. Se meu plano deu certo e Charles fez exatamente o que combinamos, a isca estava sendo plantada agora.


“Feliz aniversário, minha querida.

Hoje é uma data especial, e eu queria te dar algo, mesmo de longe. Espero que você ainda tenha sua coleção de conchas — aqui estão mais algumas para que sua coleção fique completa. Espero que esteja feliz e fazendo aquilo que realmente deseja. Nunca se esqueça de que sua felicidade deve vir antes de qualquer coisa.

Adoraria ter te levado para a Sicília e mostrado todas as praias de lá, mas espero que um dia você faça isso por conta própria. E, quando esse dia chegar, estarei com você, te olhando de longe.

Com carinho, de qualquer lugar, G.L.”


Ev se levantou, afastou alguns papéis de seda e começou a retirar, uma por uma, as conchas de dentro da caixa.

— Isso não pode ser possível... pode? — Simone olhou para Paulina, que estava mais pálida que um papel.

— Me dê isso. — Ela pegou a carta de cima da mesa, examinando cada detalhe. — A letra é dele.

Simone pegou a carta e analisou o envelope.

— Sim... — Ele riu, nervoso. — Esse selo é de alguns anos antes da morte dele. Acho que foi um presente programado.

— Que bizarro... — Nacho respirou fundo antes de beber um gole de suco.

— É lindo. — Ev puxou a carta das mãos de Simone. — Ele sabia que ia morrer... — De repente, seu semblante ficou sério. — Eu vou levar essa carta para a polícia.

Um sonoro “não” foi dito por Simone, Nacho e Paulina ao mesmo tempo.

— Posso saber por quê?

— Esse caso já caiu no esquecimento. Além disso, já sabemos que foi um assalto à mão armada.

— Essa não é a verdadeira história. — Ev guardou a carta e os outros pertences. — Me admira que você, que era tão amigo dele, não queira que a justiça seja feita.

— Quem disse que eu não quero? Olha, querida, como eu disse, ele provavelmente fez isso porque sabia que hoje resolveríamos os detalhes do seu casamento com Nacho.

— Eu já disse que não vai ter casamento nenhum. Eu não sou uma mercadoria de troca.

— Ev, pare de drama. Quem não gostaria de se casar com um homem bonito, rico e bem-sucedido como Nacho?

— Eu. — Ela disse como se fosse óbvio.

— Você não tem outra alternativa. Seus pais já concordaram com isso. — Elena afirmou com firmeza, sentando-se novamente em seu lugar.

— Eu sou maior de idade, sei o que é melhor para mim. Quer saber? Eu vou embora desta casa. — Ela agarrou a caixa e se afastou da cadeira.

— Ev, você não está facilitando as coisas. — Nacho segurou seu braço.

— Acho melhor você soltá-la. — Levantei-me e me aproximei dos dois.

— Quem você pensa que é para falar comigo assim?

— Vai por mim, você não vai querer me conhecer.

— Meninos, vocês podem parar com isso? — Elena se levantou e caminhou até nós. — Estão arruinando toda a reunião que preparei com tanto carinho. Vamos nos acalmar, tomar café e colocar todos os pingos nos "is". Aposto que Ev vai entender e aceitar nossos planos. Todos temos a ganhar. Ou você quer voltar a viver com seus pais?

— Então foi por isso que me pediu para vir para cá? Você não queria me ajudar coisa nenhuma! Você queria me vender para um casamento arranjado?! Pois que fique claro: estou colocando um ponto final nisso. Não vai ter casamento nenhum!

Ev se soltou de Nacho e saiu em disparada para o quarto.

— Ela vai casar! — Paulina disse, respirando fundo e cruzando os braços.

— Acho bom. — Simone assentiu. — O tempo está passando, a iniciação do Nacho está logo aí e ele precisa estar casado para assumir os negócios da família. Se você não concluir esse casamento logo, vou arrumar outra garota.

Touché. A isca foi mordida. O casamento era para que Nacho pudesse tomar conta de tudo que Simone achava que lhe pertencia. E assim, Paulina finalmente teria sua entrada em Las Vegas.

— Eu sei quanto tempo tenho, não precisa me lembrar.

— Bom... calma. Forçá-la não vai resultar em nada. Vamos marcar um jantar na minha casa, conversar ao longo da semana. Não quero que ela se sinta obrigada a nada.

— Pois bem. Entraremos em contato em breve.

Nacho e seu pai saíram, me deixando na cozinha com Paulina e Elena.

— Justin, talvez você possa ajudar. Converse com ela.

— Eu?

— Sim. Vocês têm criado uma conexão muito boa. Talvez ela acredite que deve seguir com isso se você falar com ela.

— E por que eu faria isso, sabendo que ela não quer?

— Porque você trabalha para mim. E, se fizer isso, receberá uma boa recompensa.

Ela sorriu e seguiu para o escritório, sendo acompanhada por Elena.

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