We Are - Capitulo 15


 

Ev

Depois daquele café da manhã desastroso, me tranquei no quarto e só saí quando percebi que o carro da Paulina não estava mais lá.

— Achei que fosse mofar ali dentro. 

Quando finalmente desci, encontrei Justin na cozinha, concentrado no notebook.

— Você podia ter me avisado que aquela cena ridícula ia acontecer, né? — resmunguei, cruzando os braços.

Ele ergueu os olhos brevemente para mim, depois voltou a digitar.

— Eu não sabia. Quando subi pra te chamar, só estavam a Paulina e a Elena aqui.

Suspirei, irritada.

— Já decidi. Vou embora daqui.

Dessa vez, ele parou de digitar e me olhou com atenção.

— Talvez ela te mantenha aqui como segurança ou algo assim... Ou então você pode procurar outro emprego por aí hoje.

— E pra onde você vai? Pra casa dos seus pais?

— Não. Você acredita que eles nunca foram pra cruzeiro nenhum? Liguei pra vizinha pra saber se já tinham voltado, e ela me disse que chegaram em casa no dia seguinte que eu saí. Foi tudo arquitetado pela Paulina pra esse casamento idiota acontecer.

Justin franziu a testa, claramente surpreso.

— Nossa... Que loucura.

— Dá até vontade de casar com ele e tirar tudo dela só de vingança — brinquei.

— Sério? — O tom dele mudou. Ele me encarava com o maxilar travado, os dedos paralisados sobre o teclado. — Você se casaria com ele? — perguntou, a voz firme.

— Isso te incomoda? — provoquei, arqueando a sobrancelha.

— Só fiquei surpreso. Você falou mal dela pelo interesse, mas estaria disposta a fazer o mesmo só para se vingar?

Revirei os olhos.

— Ei, calma aí. Eu nunca faria algo parecido com ela, eu só estava brincando.

— Se você acha isso engraçado... — Ele desviou o olhar, visivelmente incomodado.

— Qual é a sua, hein, Justin? — perguntei, cruzando os braços. — Quem tinha que estar com raiva sou eu! Hoje é meu aniversário, e minha manhã já foi uma droga por causa da companhia deles. A única coisa boa naquele café da manhã foi o presente do meu tio. Não entendo por que você tá com esse chilique.

Justin suspirou, fechando o notebook com calma. Depois pegou o celular, olhou para a tela e voltou sua atenção para mim.

— Ela me pediu pra falar com você.

— Ela quem? Falar o quê?

— Paulina. Pra você se casar com ele. De acordo com ela, nós criamos uma conexão boa, e se eu falasse com você, talvez me escutasse... por causa da minha idade.

Franzi a testa.

— Sua idade?

Ele riu sem som e se aproximou mais de mim, cruzando os braços.

— Eu tenho o dobro da sua idade.

— Trinta e sete anos não é grande coisa.

— Nove anos de diferença não é grande coisa? — Ele arqueou a sobrancelha.

— Só pra quem é careta — retruquei, sorrindo.

Justin riu e eu, impulsivamente, me equilibrei na ponta dos pés para beijá-lo. Mas, no último instante, ele se afastou.

— Então, sobre o bar do Domenico... Me avisa a hora e eu te levo lá — disse, desviando do assunto.

— Aconteceu mais alguma coisa? — perguntei, tentando decifrar sua expressão.

— Comigo? Não. E com você?

Ignorei a pergunta e virei as costas, caminhando em direção ao meu quarto. Eu precisava descobrir o que estava acontecendo. E hoje ele iria me responder, por bem ou por mal.

Justin

Quando Ryan me enviou aqueles e-mails mostrando o dinheiro que Paulina tinha roubado do meu pai e do meu tio, transferindo para uma conta no nome da Ev, meu sangue ferveu. Não acredito que fui tão burro esse tempo todo. Acho que estou há tanto tempo sem uma mulher na minha cama que comecei a delirar. Sério que achei que essa merda daria certo?

— Justin, calma — Domenico falou assim que atendi sua ligação.

— Calma? Tem uma ilha no nome dela, uma ilha! A ilha onde meu pai pediu minha mãe em casamento! Estou a ponto de cometer uma loucura. Essas duas têm que pagar!

— Justin, pelo amor de Deus, se acalma. Isso não faz sentido.

— Como não faz? Olha tudo o que o Ryan achou!

— Você acha que o Gianni, sendo contador, não descobriria isso? Antes de tomar alguma atitude arriscada, para e pensa cara, porque, se você não se lembra, você está no território do Simone e do Nacho, e só eu aqui não vou te ajudar em nada. Tenta sondar. Eu vou desligar as câmeras da casa essa madrugada. Revira tudo e tenta achar alguma coisa. Ou então, pergunta algo pra menina.

— Eu não sei, cara...

— Pensa bem, Justin. E outra, isso tem que acabar logo. E quando acabar, o que vai acontecer com vocês?

— Se ela não tiver nada a ver com isso, eu vou levar ela embora.

— E causar uma briga com o Nacho? Ele não vai casar com ela?

— Se depender de mim, não vai! Mais tarde eu chego aí.

— Beleza. Até mais.

Eu preciso saber se isso é verdade. Se for, vou dar um jeito de vingar meu pai e Gianni. Mas, se não for, Paulina tem os dias contados. Ela não vai envolver minha garota nesse esquema sujo. Ninguém toca no que é meu.

Ev

O caminho até o bar do Domenico foi um completo silêncio. O que aconteceu com a manhã incrível que tivemos? O que aconteceu naquele café da manhã, antes e depois de eu descer, que mudou a atmosfera da minha relação com Justin? Aliás, o que será que isso tinha se tornado?


— Que clima bosta, amiga. Sorria, é seu aniversário! — Kaia levantou a taça e fez uma dancinha.

— Será que ele ficou chateado porque eu disse que ia embora?

— Amiga, na boa, pensa assim: ele tá ganhando uma fortuna e ainda transa com a mulher que tem que proteger. Qualquer homem ficaria feliz em ter um trabalho assim.

— Então ele tá assim só porque vai perder uma fortuna?

Kaia deu de ombros e tomou um gole do champanhe.

— Pelo jeito que ele te olha...

Nós nos viramos ao mesmo tempo e lá estava ele, encostado no bar, bebendo uísque e nos observando.

— Então eu devia perguntar pra ele o que a gente tem?

— Pergunta sincera — Kaia sorriu e ergueu a taça. — Se ele voltasse pra onde mora e te chamasse, você iria com ele?

Nunca tinha pensado nisso. Não que eu estivesse apaixonada por ele... mas imaginar um futuro onde Justin não estivesse presente me dava uma angústia absurda.

— Ei, tô falando com você, doida! — Kaia estalou os dedos na minha frente, me tirando do transe.

— Oi... — sorri sem graça. — Não sei o que responder pra sua pergunta.

— Que pergunta? — Justin surgiu ao nosso lado, segurando uma caixa vermelha e uma sacola.

— O que é isso? — perguntei quando ele se sentou ao meu lado.

— Não achou que eu ia finalizar a noite sem te fazer passar vergonha, né? - Kaia sorriu e me abraçou.

Ele abriu a caixa e revelou um bolo lindo de red velvet, decorado com glacê branco e a inscrição "Feliz Aniversário" no centro. Meu coração acelerou.

— Trouxe o melhor champanhe do meu bar. Aproveita, porque não sou bom o tempo todo — Domenico apareceu segurando uma garrafa de champanhe rosé e quatro taças.

— Agora sim, está tudo completo! — Kaia sorriu antes de dar um selinho em Domenico.

Os três começaram a cantar "Parabéns" para mim e, logo, todos ao redor se juntaram ao coro. Olhei para eles e desejei que o tempo congelasse ali, naquele instante perfeito.

— Agora faz um pedido e assopra as velas! — Kaia segurou o bolo na minha frente.

Uma imagem veio à minha mente: eu e Justin, felizes, em um lugar só nosso. Era isso que eu queria. Um futuro ao lado dele. Assoprei as velas e respirei fundo, sorrindo ao ver os três me encarando, os olhos brilhando.

— Vou arrumar uns pratos pra gente comer — Domenico se levantou.

— Chegou a hora do meu presente! — Kaia disse animada, me entregando uma sacola enorme da Victoria’s Secret.

— Você comprou calcinha pra ela? — Justin arqueou a sobrancelha, surpreso.

— Claro! Ela não tava preparada pros últimos acontecimentos, então agora tem algo pra usar nos momentos inusitados.

— Acho que fazer sem roupa é melhor — ele provocou com um sorriso de canto.

— Vocês dois querem parar? — retruquei, revirando os olhos. — Obrigada, Kaia. Você é bem maluca da cabeça.

Peguei a sacola e a coloquei no chão, ao lado das minhas pernas, enquanto todos riam. Era meu aniversário e, apesar de tudo, eu estava feliz.

Depois de dançar loucamente com Kaia, decido dar um pouco de atenção a Justin, que está conversando com Domenico.

— Não é possível que vocês vão ficar aí conversando a noite inteira.

— Ainda não são nem duas da manhã — Domenico olha o celular e sorri de canto. — A noite é uma criança.

Justin ri, se levanta e, em um instante, está atrás de mim.

— Domenico, acho que podemos passar a noite de um jeito melhor do que só conversando. Cadê sua namoradinha? Vai abrir concorrência?

Domenico lança um olhar ao redor e logo encontra Kaia no bar, conversando com dois caras.

— Se eu fosse você, ia rápido... Sabe como Kaia não perde tempo — aviso, estalando os dedos diante do rosto dele.

Ele não pensa duas vezes antes de sair apressado em direção ao bar.

Justin não tem a menor dificuldade em me puxar pela cintura, me envolvendo num abraço firme antes de me conduzir até a pista de dança. "Into You", da Ariana Grande, toca alto, fazendo a multidão pular e se mover no ritmo da batida. Me viro de costas para ele, deixando que me abrace por trás. Encosto a cabeça em seu ombro e fecho os olhos, apenas aproveitando o momento.

— O que você pediu quando apagou as velas? — Justin sussurra no meu ouvido.

— Se eu falar, não se realiza.

— Ninguém acredita nisso.

Ele me vira de frente para ele.

— Todo mundo acredita nisso — sorrio de leve.

— Eu faço parte desse pedido?

— Não vou dizer.

Envolvo meus braços ao redor de seu pescoço, aproximando ainda mais nossos corpos.

— Assim não tem graça — ele murmura. — Porque, se for algo que me envolva, eu preciso saber para poder realizar.

— Mas quando a gente faz um pedido assim, não é para alguém realizar. É para o universo.

— Essa é a coisa mais careta que já ouvi.

— Deixa de ser chato, vai.

Reviro os olhos e Justin me encara. Seus olhos cor de mel escurecem. É aquele olhar dele. Aquele que sempre me arrepia.

— Você revirou os olhos pra mim?

— Talvez… O que vai fazer em relação a isso?

Justin

Quando Domenico disse que tinha preparado uma sala especial, eu não esperava algo tão exclusivo assim. Talvez fosse o efeito da bebida, mas Ev parecia diferente. Mais solta. Falante.

— Tô pensando em contratar um detetive — ela disse de repente, vestindo sua lingerie.

Franzi a testa.

— Como assim? Pra quê?

Ela cruzou os braços, me encarando como se esperasse que eu adivinhasse.

— Eu acho que ela mandou matar meu tio.

Minha mente, já um turbilhão com toda aquela história da ilha, pareceu travar por um instante. Parte de mim queria contar a verdade, mas... Como?

— Não acho que ela faria isso. Eles são casados há anos, não?

— Sim, mas não faz sentido ela ficar tão nervosa toda vez que o nome dele é mencionado. E essa história de casamento... — Ela hesitou por um segundo, depois veio apressada e se sentou na cama, bem na minha frente. — E se... e se a Paulina e o Simone eram amantes? Ele não queria que ela se envolvesse nos hotéis dele, talvez o Simone tenha colocado coisa na cabeça dela. E se ela fez isso pra poder tomar tudo pra si?

— Mas ela sempre foi rica...

Ev riu, irônica.

— Justin, minha família nunca teve nada de tão importante. Meus pais e, principalmente, minha tia, só começaram a esbanjar luxo depois que ela se casou com meu tio.

— Espera... O sobrenome Lancaster não é da sua família? Da sua tia?

Ela balançou a cabeça.

— Não. Gianni Benedetti Lancaster é o sobrenome do meu tio.

Naquele instante, senti meu estômago revirar. Esse nome... Eu me lembrava dele. Benedetti. Era o nome de um dos hotéis que meu pai usava para reuniões. As movimentações financeiras daquele hotel... eram contas laranjas. Eu me lembrava perfeitamente do Mario brigando com Gianni, dizendo que tudo aquilo era um erro. Mas Gianni e meu pai estavam convencidos de que era o caminho certo.

E agora tudo fazia sentido.

Paulina queria que Ev se casasse com Nacho porque, provavelmente, toda a fortuna de Gianni estava no nome dela. Se Ev se casasse com alguém poderoso, como Simone, Paulina poderia reivindicar tudo para si.

— Justin? Terra chamando Justin.

A voz de Ev me trouxe de volta. Ela já estava vestida, arrumando o cabelo em frente ao espelho.

— Desculpa, viajei aqui — murmurei, me levantando para procurar minhas roupas.

Ela riu, mas era um riso tenso.

— Eu sei que minha família parece uma confusão digna de um livro do meu Kindle... — suspirou. — Se eu pudesse jogar tudo isso pro alto e recomeçar do zero em outro lugar, seria perfeito.

Me aproximei sem que ela percebesse, parando bem atrás dela.

— Comigo?

Ela se virou assustada, os olhos arregalados.

— Você iria comigo?

— É só você dizer quando.

Ela sorriu e me beijou.


Ev

Descemos as escadas e, para minha surpresa, o bar ainda estava lotado. Pessoas dançavam, bebiam, jogavam sinuca como se a madrugada fosse eterna.

— Vou avisar a Kaia que estamos indo embora. Aposto que ela tá se agarrando com o Domenico no escritório.

— Ok, eu pago a conta do bar.

Fui me esgueirando entre as pessoas até chegar ao canto que Domenico chamava de "O Beco do Dom". Havia cacos de vidro no chão, provavelmente resultado de alguma briga. Suspirei e bati na porta.

— Kaia? Domenico? Eu e Justin já estamos indo.

Nada.

Bati de novo, mas só o silêncio respondeu. A porta entreabriu sozinha. Meu coração acelerou.

Entrei devagar, tateando o interruptor até acender a luz.

Foi nesse momento que meu coração parou.

Meu corpo ficou paralisado por alguns segundos, o suficiente para o choque se espalhar por cada célula. Quando finalmente consegui reagir, saí correndo.


Justin

Eu estava no bar conversando com um dos caras que Domenico trouxe da Sicília quando vi Kaia, completamente bêbada, misturando drinks com a maquiagem borrada.

— O que tá fazendo aqui? Achei que estivesse com o Domenico.

Ela riu de leve, despejando um líquido em um copo.

— Eu tava. Mas alguém chamou ele no escritório, e eu vim fazer drinks pra galera da despedida de solteiro.

Eu ia pegar o celular quando, de relance, vi Ev correndo pelo bar, desviando das pessoas como um furacão. Antes que eu pudesse entender, ela colidiu comigo.

Ela tremia. Chorava.

— O que foi? Alguém tocou em você?

Segurei seu rosto, mas em questão de segundos, foi o meu mundo que parou.

O desespero em seus olhos disse tudo antes mesmo dela falar.

— O Domenico... ele tá todo ensanguentado no chão do escritório.

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