We Are - Capítulo 1


Ev

— Muito obrigada por me deixar ficar aqui — agradeci, sentando no imenso sofá branco da casa da minha tia.

Assim que soube da viagem dos meus pais, ela insistiu para que eu viesse passar o tempo em sua casa. Consegui trancar meu curso na universidade, arrumar as malas e comprar uma passagem para Portland antes mesmo de ter tempo de pensar no que realmente levaria.

— Você não faz ideia da alegria que é ter você aqui. Eu quase nunca fico em casa por causa das viagens a trabalho, mas não se preocupe — explicou ela, enquanto examinava uma pilha de papéis sobre a mesa. — Já contratei um segurança que vai te levar onde precisar. Ele também cuidará da casa, mas esse é apenas um detalhe.

Enquanto ela falava, aproveitei para observar o ambiente ao meu redor. Estávamos no escritório que, anos atrás, pertenceu ao meu tio. Era um espaço amplo, com paredes brancas e altas que davam ao cômodo uma imponência quase intimidadora. A enorme janela de vidro ia do chão ao teto, revelando uma floresta perfeitamente cuidada — um cenário que parecia ter saído de algum filme de vampiros, no melhor estilo Crepúsculo. Em uma das paredes, uma biblioteca colossal exibia centenas de livros, e meus olhos se perderam nela por alguns segundos.

— Pelo visto, você herdou a obsessão por leitura do seu tio — comentou minha tia, percebendo meu fascínio. Havia um tom de melancolia em sua voz enquanto olhava para a estante. — Mas, para ser sincera, duvido que você goste dos livros dele. O gosto literário do Gianni era… peculiar, para dizer o mínimo. — Ela riu enquanto começava a juntar seus pertences.

— Justin chegará amanhã de manhã. Já expliquei tudo a ele, então não precisa se preocupar em mostrar a casa ou nada do tipo. Apenas diga sua agenda e seus gostos, e ele cuidará do resto.

— Sei que a senhora acredita que isso é necessário, mas… eu realmente não preciso de um motorista. Posso dirigir sozinha e ir aonde quiser — argumentei, tentando soar convincente.

Minha tia sorriu, aquele sorriso que sempre fazia parecer que ela sabia algo que eu não sabia.

— Querida, Portland é enorme. Você se perderia no primeiro dia. — Sua voz era gentil, mas cheia de determinação. — Além disso, sabe muito bem que Gianni nunca ficaria tranquilo sabendo que sua joia preciosa está andando sozinha por aí.

Ela passou a mão pelos meus cabelos, e senti um incômodo estranho no estômago com o gesto.

— Além do mais, podemos pagar por um segurança. Então, vamos ter um. Acredite, você vai acabar adorando.

Sem se despedir, ela saiu do escritório, como sempre fazia, deixando-me sozinha naquela casa gigantesca de dois andares. Tudo parecia imenso, impessoal, até o iPad que controlava cada detalhe da casa. Suspirei, ainda hesitando. Pensando bem, talvez não fosse tão ruim assim ter alguém para me levar de um lado para o outro. Minha livraria favorita ficava longe, e com um motorista, eu poderia ler no caminho.

Ou, quem sabe, eu poderia convencê-lo de que minha tia simplesmente tinha mudado de ideia.

Justin

Achar que Gianni tinha algo a ver com a morte do meu pai era burrice, até para Mario, o homem mais inteligente que eu conhecia. Mas muitas provas apontavam para ele. Apesar disso, meu coração insistia em dizer que Gianni havia sido tão vítima quanto meu pai.

— Vai levar só isso de roupa? — Ryan entrou no quarto com mais uma pasta em mãos. — Portland é frio nessa época do ano.

— Você está adorando tudo isso, não é? — retruquei, colocando as poucas roupas que tinha separado na mala.

— Eu te disse que devia pegar mais leve na farra e focar na família.

— A família me mandou para o inferno quando meu pai levou um tiro na minha frente. Nem me deixaram ir ao enterro.

Ryan suspirou, o peso do assunto evidente em seus olhos.

— Eu sei que aquilo foi traumático. Eu nem estava lá, mas só de ouvir você contando, fico mal. — Ele me entregou a pasta, e, ao abri-la, vi novamente a foto da garota.

— Existem tantos outros jeitos de descobrir a verdade. Você acha mesmo que me infiltrar naquela casa, com essa garota e a velha que o padrinho chamava de esposa, vai adiantar alguma coisa?

— Olha só, Justin, o escritório dele ainda está lá. Você precisa achar alguma prova. Converse com a velha — ele riu, como se quisesse aliviar o clima — e tente arrancar algo da garota.

— Isso é quase impossível. Eles vão descobrir.

— Justin, você não tem alternativa. Você mentia tanto quando era criança para não ir à escola que deveria estar acostumado. Vai dar conta. E, se for o caso, finja ser o melhor amigo gay da garota. Faça ela se abrir com você.

Ryan começou a rir, o rosto ficando vermelho de tanto se divertir com a própria ideia. Irritado, empurrei-o com o pé, e ele caiu da cama. Levantou-se rápido, ajeitando o terno amassado com as mãos.

— Vou estar em contato com você o tempo todo. Alfredo já está no bar perto da casa. Qualquer coisa, é só correr para lá — disse, sério agora, colocando as mãos nos meus ombros. — Você vai conseguir, Drew. Nosso pai precisa disso. E, se Gianni também for inocente, precisamos tomar uma providência.

Eu sabia que Ryan estava certo. Só precisava de um plano… e de coragem para executá-lo.

Justin

A casa estava quieta, silenciosa, e eu finalmente estava sozinha. O silêncio era algo que, até então, eu não sabia que precisava tanto. Caminhei pela sala, tocando os móveis e me maravilhando com o ambiente que agora chamava de meu. Ter a casa inteira para mim me permitiu fazer várias coisas, como, por exemplo, cozinhar. Decidi tentar algo simples, como panquecas. Achei que fazer panquecas iguais às dos filmes fosse mais fácil do que parecia. Eu estava me sentindo a própria Matilda, só que sem poderes especiais.

Com a cozinha finalmente dominada, preparei meu cappuccino com marshmallows e me acomodei no enorme pufe em frente à lareira. O clima frio, com os termômetros marcando 7ºC, me fez vestir o pijama de dupla camada que minha tia me dera de presente. Ela sempre soubera escolher os melhores presentes, sendo dona de uma das mais renomadas marcas de roupas e acessórios. Se havia algo que ela sabia fazer bem, era mimar a família com presentes incríveis.

Enquanto degustava a bebida quente, a luz do fim de tarde já começava a desaparecer e, com ela, a tranquilidade do momento. Então, ouvi duas batidas na porta. Eram suaves, mas como estava sozinha, fiquei alerta. Olhei pelas câmeras de segurança e, para minha surpresa, não vi ninguém. Quando estava prestes a relaxar, mais uma batida veio, mas dessa vez, vinda da cozinha. Com o coração batendo forte, corri até lá e, ao olhar pelo iPad, vi apenas uma silhueta se aproximando.

Abri a porta rapidamente e, sem aviso, um homem enorme passou por mim, jogando uma bolsa no chão e assoprando as mãos, tentando se aquecer. O frio parecia estar congelando até a alma dele.

— Esse frio é desumano — ele disse, tremendo visivelmente. Era um homem de aproximadamente 1,75m, com um porte imponente, mas naquele momento, parecia um cãozinho encolhido no frio. O que me fez achar graça, mas também sentir uma leve preocupação ao notar o seu nariz vermelho e as pontas dos dedos roxas.

— Na Sicília também faz frio — eu retruquei, tentando desviar a atenção para a minha própria experiência com o inverno.

Ele parou de assoprar as mãos e me olhou de forma desconfiada, uma linha fina se formando no meio de sua testa.

— Como sabe de onde eu vim? — Ele perguntou, curioso, os olhos focados em mim.

— Bom, você vai morar aqui, o mínimo que eu deveria saber é de onde você veio — respondi, sem hesitar. Depois, tranquei a porta e caminhei até os armários da cozinha, em busca de uma chaleira. Coloquei água para ferver, enquanto ele se acomodava no banco da cozinha, apoiando os braços na bancada de mármore branco.

— Sempre tive vontade de ir pra lá — continuei, tentando parecer natural enquanto esperava a água esquentar. — Meu tio sempre tinha reuniões lá, mas nunca quis me levar.

— Hum… A Sicília é fria, mas com um bom casaco você se aquece — ele disse, com uma leve ironia, como se soubesse mais sobre o frio do que eu.

Eu sorri de leve, tentando não transparecer o quanto aquela conversa estava entediante.

— Você não deve ter recebido o recado, né? Minha tia teve umas mudanças de planos e seus serviços não serão mais necessários — tentei ser convincente, observando seus olhos escuros que não pareciam acreditar no que eu estava dizendo.

Ele me encarou por alguns segundos, e eu sabia que ele estava ponderando. Então, ele se focou nos meus movimentos enquanto eu preparava a bolsa térmica com água quente.

— Imaginei que o sinal estaria horrível por conta do frio lá fora, mas eu vou avisar que você esteve aqui — continuei, entregando-lhe a bolsa com uma toalha junto.

Aproximei-me dele e pude ver seu rosto com mais clareza. Ele tinha uma expressão séria, mas algo no fundo de seus olhos parecia inquietante.

— Você já foi expulsa de uma escola por ter tocado a campainha de incêndio na apresentação de Dia das Mães, porque sua mãe não ia estar lá — ele começou, suas palavras cortantes. — E você já furou os pneus do carro do seu tio quando ele ia sair de casa no seu aniversário para uma reunião… Ah, e teve aquele dia em que…

Eu o interrompi, meu corpo congelando diante de suas palavras.

— Como sabe de tudo isso? — perguntei, meu coração batendo mais forte, sentindo um misto de raiva e medo.

Ele deu um sorriso enigmático.

— Bom, já que vou morar aqui, o mínimo que eu deveria saber é que você é contra o politicamente correto e que tentaria inúmeras coisas para tentar me tirar daqui — ele falou com uma voz baixa, quase desinteressada, mas seus olhos não mentiam. — Você tem a chave do meu quarto?

Ele se levantou e, em um movimento ágil, foi até uma gaveta perto da geladeira. Lá, retirou um molho de chaves e um iPad, observando-o por um momento antes de voltar sua atenção para mim.

— Já que vamos morar aqui, preciso te avisar de algo — ele continuou, dando um passo em minha direção. — Este é o último trabalho que eu gostaria de ter. Estou tão feliz quanto você por termos que dividir o mesmo espaço. Então, se você me deixar em paz, eu também farei o mesmo. Não quero correr atrás de você por aí.

E, com isso, ele passou por mim e se dirigiu ao que agora seria seu quarto. Fiquei ali, com a xícara de cappuccino fria nas mãos, imaginando de onde ele tinha surgido e o que exatamente ele sabia sobre mim.

Uma coisa era certa: ele não era uma pessoa qualquer. E, de algum modo, eu sabia que minha vida nunca mais seria a mesma com ele ali.

Comentários

  1. Se a sua vida nunca vai ser a mesma depois dele, imagina a minha depois dessa fic 😭😭😭😭

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