We Are - Capitulo 3
Justin
Depois da cena na cozinha, deixei a garota ir para o quarto e saí para explorar a casa. Precisava saber onde estavam as câmeras. Vai que a velha está me espionando por aí? Enquanto tentava mexer no iPad que comandava algumas coisas da mansão, liguei para o Domenico. Ele atendeu no terceiro toque.
— Assim você me quebra, cara! — Domenico disparou antes mesmo de eu dizer qualquer coisa. Sentei-me no sofá, encarando a janela completamente congelada.
— O que foi? — perguntei.
— Apostei com o Ryan que você pediria ajuda em cinco dias. Ele apostou que seria em menos de três. Agora devo mil pratas para aquele idiota.
Respirei fundo, imaginando a cena ridícula que os dois devem ter protagonizado.
— Preciso saber onde tem câmeras nesta casa. Não posso sair procurando sem ter certeza.
— Ok, bem pensado. Pelo que vi, só tem câmeras do lado de fora. Pelo visto, é impossível alguém invadir essa casa.
— Certo. Tive uma conversa interessante com a garota hoje. A Paulina não gostava do meu pai.
— Sério? Eu não fazia ideia. Ela disse o motivo?
— Não. E ela também não faz ideia no que a família dela está envolvida. Parece que foi enganada a vida toda.
— Como isso é possível? Cuidado, Justin. Ela pode estar tentando te manipular.
— Domenico, ela acha que a tia tem uma loja de roupas e que o tio era dono de restaurantes. — Apoiei os cotovelos nos joelhos, pensativo. — Aparentemente, ela odeia os pais.
— Eu também odiaria se morasse com uma família completamente louca que só pensa neles mesmos. Acredita que eles viajaram sem avisar nada para ela? E, pior, mantinham a garota trancada em casa, nível sequestro. — Ele riu.
— Do que você está falando?
— Estou falando deles passarem dias viajando e deixarem a casa toda trancada. Acho que, depois do Gianni, eles piraram.
— E como você sabe disso?
— Tenho informantes em todos os lugares.
— Então por que diabos eu estou aqui?
Pude ouvir Domenico rir e afastar o celular por alguns segundos enquanto dava alguma ordem.
— Isso se chama colher o que plantou. Ou, para os mais íntimos, castigo por ter feito farra a vida toda.
— Nos últimos quatro anos, fiquei em casa. Isso não faz sentido.
— Quando você levar isso a sério, vai entender o Mario. — A voz dele ficou distante de novo, e me levantei.
— O que você está fazendo? Que barulho é esse?
— Estou aperfeiçoando meu disfarce. Vou inaugurar meu bar hoje. Aparece aí qualquer hora. Você tem que ver como está o lugar.
— Qualquer desculpa para ter bebida à vontade, hein?
— E com uma pista de dança insana. Ah, claro, áreas VIPs de tirar o fôlego. — Ele se afastou novamente, mas voltou segundos depois. — Preciso desligar agora, mas, antes, me diz uma coisa: a garota? Como ela é?
Ri, lembrando dos nossos diálogos até agora, e olhei para a cozinha. Se isso tem que dar certo, eu preciso jogar direito.
— Ela é insana — repeti, usando a palavra dele.
Domenico riu do outro lado da linha.
— Te ligo depois — finalizei, desligando a chamada. Ainda perdido nos meus pensamentos, comecei a imaginar o que eu faria para o almoço.
Ev
Depois daquela cena constrangedora na cozinha, fui para o quarto, ainda com vontade de comer meus doces, que agora estavam no estômago do sem noção. Não sei mais quanto tempo vou ter que aturar ele aqui. Decidi ligar para minha tia, na tentativa de convencê-la de que ter um segurança não era necessário.
— Tia, eu nem tenho vontade de sair de casa. — me joguei na cama e me cobri com o edredom.
— Querida, me entenda, nossa família é muito importante. Você sabe que ninguém descobriu o que aconteceu com seu tio ainda, todo cuidado é pouco.
— Mas ninguém sabe quem eu sou, ninguém sabe que estou aqui, e outra, andar de Uber é super seguro. A casa está ótima, tem tantos robôs nela que nem precisa de faxineira.
— Bem lembrado, querida. Vou dar uma festa de lançamento e você tem que ir à altura de uma Lancaster.
— Festa? Que festa? — me sentei na cama com certa rapidez.
— Uma festa, ué. Já deixei tudo combinado com o Justin, ele vai te levar como acompanhante e um motorista vai levar trazer vocês até mim.
— Acompanhante? — Imaginei o Justin como um acompanhante de luxo ou algo assim, e tive que rir da cena. — Deixa eu ver se eu entendi: o Justin, que é meu segurança e motorista, vai precisar de segurança e motorista? Que vida ótima.
— Ev, não posso perder tempo com seus chiliques no momento, estou resolvendo algumas coisas importantes. Por favor, não torne isso mais difícil do que já está sendo. Justin está apenas cumprindo ordens, ordens que você sabe que seu tio super aprovaria.
Respirei fundo, deixando que ela ganhasse essa conversa. Antes que eu pudesse dizer algo, ela disse que me amava e desligou. Lancaster… Por tanto tempo, esse sobrenome esteve escondido na minha vida. Meus pais sempre usufruíram da riqueza da família, mas nada comparado ao estilo de vida que minha tia vive, ou que meu tio viveu. Bem que minha mãe gostaria, mas sua irmã não gostava muito dela. Na verdade, acho que a Paulina nem gosta de si mesma.
Ouvi batidas na porta e, com toda a preguiça do mundo, me levantei já sabendo quem estava lá. Abri a porta e um cheiro delicioso de massa e carne veio em minha direção.
— Eu fiz o almoço. — ele disse, parado bem na entrada do meu quarto. Mais um passo e ele cobriria toda a porta.
— Ok, lave a louça depois. — tentei fechar a porta, mas ele colocou a mão na frente.
— Estou avisando que você precisa descer para comer.
— E desde quando você manda em mim? — ergui uma das sobrancelhas.
— Desde que assinei um termo de responsabilidade que me obriga a te manter em segurança, alimentada e fora de perigo.
— E quem garante que você não envenenou a comida?
— Poxa, descobriu meu plano.
Antes que eu pudesse responder, Justin me pegou como um saco de batatas. Perdi um pouco do fôlego quando minha barriga bateu no ombro dele. Tentando não me desequilibrar, me agarrei à barra de sua calça.
— É assim que quer me manter fora de perigo, seu animal? Me coloca no chão.
— Você vai almoçar, nem que eu tenha que enfiar goela abaixo.
— Ah, mas eu não vou mesmo. ME SOLTA! — Com toda a raiva que estava dentro de mim, não me atentei aos meus reflexos e dei um tapa na bunda de Justin.
— Eu posso retribuir, hein? — ele riu, enquanto me colocava sentada à mesa. Olhei para o que parecia um banquete. Algumas panelas com uma massa bem apresentada, uma travessa com carnes suculentas e um molho branco completavam a refeição.
— Não sei o que você gosta de comer, então fiz minha comida favorita. A batata frita está quase pronta. Suco ou refrigerante?
Continuei em silêncio, brigando com minha versão interior, que estava saltitando de felicidade com tudo aquilo, enquanto apreciava a versão casual de Justin. Ele usava uma calça de moletom justa e um suéter preto que marcava todos os músculos. Apesar de odiar essa vida de dinheiro, talvez eu pudesse fazer um sacrifício e viver assim por um tempo.
— Eu sei que você não está feliz aqui. Sei que sua vida é completamente diferente disso, sei que está aqui porque não quer morar com seus pais. Mas eu preciso ficar aqui, e se você não colaborar, a minha vida também vai ficar uma merda. E, vai por mim, nós dois não queremos isso.
Justin tinha razão. Ele não tinha culpa disso. Minha tia o contratou, ele só estava cumprindo ordens. Se tem alguém que eu tinha que azucrinar em relação a isso, era ela. Respirei fundo, baixei a guarda e o encarei de pé, do outro lado da mesa.
— Refrigerante, por favor. — falei baixinho.
— Com gelo e limão? — ele sorriu, achando graça no jeito animado em que me fez a pergunta. — É para já, senhorita.
É, talvez eu possa viver assim por um tempo.
Espero que tenha ficado do jeito que imaginou! Se precisar de mais ajustes, me avise.
Devo confessar que o almoço estava ótimo. Justin realmente tinha talento para a culinária.
— Ok, podemos entrar em um acordo. — Eu disse, ele parou deixando o garfo com um pedaço de carne pairando no ar.
— Estou ouvindo.
— Você pode cuidar do almoço e do jantar, e eu fico responsável pelos lanches e doces.
Ele parou, pensativo, e comeu o pedaço de carne que tinha segurado antes de eu começar a falar.
— Fechado, mas... você tem que fazer aquele bolinho sempre.
— Muffin? Ok, fechado. — Sorri, deixando o silêncio encerrar a conversa.
Depois de algum tempo, Justin se levantou para tirar os pratos, enquanto eu fui até a cozinha colocar alguns cookies para assar.
— Então, como anda o livro daquela autora esquisita? — ele perguntou, se encostando na bancada.
— Um horror. Dei duas estrelas.
— Entendi. — Ele riu, puxando um banco para se sentar. — Sua tia mencionou algo sobre seus pais viajarem.
— Foram para um cruzeiro do cover do Elvis. — Fechei o forno e cruzei os braços, me apoiando na bancada.
— Elvis? Presley?
— Esse mesmo. Eles me avisaram no dia em que partiram. Só se preocuparam em pedir para eu regar as plantas.
— E você regou?
— Ops, esqueci. — Revirei os olhos e ele riu. — Os seus pais também dão defeito?
— Meu pai faleceu alguns anos atrás. Minha mãe nos abandonou quando eu era pequeno, então... não sei se ela é problemática. — Ele riu, mas havia uma tristeza contida no som.
— Sinto muito pelo seu pai.
— Está tudo bem... E você, não tinha segurança na casa dos seus pais?
— Minha vida em Staten Island não é nada comparada com isso aqui. Apesar de sermos da mesma família, minha tia sempre odiou minha mãe... e, sinceramente, eu até entendo.
— E o seu tio?
— Ele nunca gostou de se meter nas confusões da família, mas sempre dizia que "família vem em primeiro lugar".
— Entendi. Parece que ele era um cara muito bom.
Peguei meu celular e abri a galeria, procurando uma foto da última vez que o vi. Hesitei um pouco antes de virar a tela para Justin.
— Você se parece com ele.
— Todo mundo diz isso. — Ele sorriu.
— E então, senhorita, tem algum plano para hoje?
— Não. — Sorri, tentando parecer convincente. Justin não podia nem sonhar que eu iria à inauguração de um bar novo aqui perto. Quando Kaia me ligou, eu aceitei na hora. Mas levá-lo comigo? Nem nos meus piores pesadelos.
— Tem certeza? Não precisa comprar nenhum ingrediente? Lembre-se de que você está responsável pela parte doce das refeições.
— Está tudo sob controle. Ainda temos bastante ingrediente, e, se faltar algo, dá para adicionar no tablet da geladeira. Eles trazem quando vierem fazer a faxina.
— Entendi... Ah, sua tia comentou sobre a festa?
— Sim. Nesse dia, infelizmente, estarei com dor de cabeça. — Minha voz estava carregada de sarcasmo.
— Sua tia disse que você tentaria de tudo para não ir. — Ele começou a rir.
— Eu odeio essas festas! Tenho que usar um salto absurdo, ela me apresenta para meio mundo de gente que já me conhece, e ainda tem os sócios velhos dela com caras de tarados que fazem perguntas indecentes. E, claro, não posso mandar eles irem se ferrar.
— Nossa, muita coisa. Mas agora você tem uma carta na manga.
— Qual?
— Eu. — Ele sorriu, confiante.
— Claro, você vai dar um soco em quem se aproximar? Porque é isso que eu tenho vontade de fazer.
— Acredite em mim, com você ao meu lado, eles não vão nem tentar.
Ok, vamos fingir que eu não me arrepiei com esse momento de "boy pitbull" literário.
Justin
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Sinto que esses dois ainda vão ser mais do que roommates 🥹🥹🥹
ResponderExcluirQue perfeitos esses diálogos dos dois