We Are - Capitulo 2

 Justin

Acordei com um aroma delicioso de café vindo da cozinha. Peguei meu celular e chequei as notificações. Algumas informações precisavam ser pesquisadas. Ontem depois de assistir a um vídeo no YouTube sobre como ajustar o ar-condicionado para a função de aquecimento. Depois, mandei uma mensagem para Ryan, contando como foi meu encontro com a garota. Ele, é claro, riu e disse que ia me enviar um PDF intitulado: Como Ser Uma Babá Excelente. Só depois de rir da piada sem graça dele consegui dormir.

Na manhã seguinte, entrei na cozinha ainda meio sonolento e encontrei a garota limpando uma bagunça colossal.

— Bom dia. — Observei a confusão ao meu redor. — Tudo isso só pra fazer café?

Ela não respondeu. Em vez disso, abaixou-se para abrir o forno e retirou uma assadeira repleta de biscoitos dourados e outra com pequenos bolinhos.

Fui até a geladeira, procurei algo para beber e peguei leite e frios. Enquanto ela colocava copos na lava-louça, me aproximei das assadeiras. O cheiro estava irresistível. Peguei um biscoito para experimentar, mas antes que pudesse dar a primeira mordida, ela deu um tapa na minha mão, fazendo o biscoito cair de volta na assadeira.

— O que foi? — perguntei, confuso.

Ela continuou me ignorando e começou a colocar os biscoitos em um prato.

— Não precisa me servir na mesa. — Ironizei, mas me assustei com a gargalhada alta que ela soltou.

Ela terminou de rir e, cruzando os braços, disse com sarcasmo:

— Acha mesmo que eu fiz tudo isso pra você? E ainda te servir na mesa? Só pode estar sonhando.

Tirou o avental, serviu-se de alguns biscoitos e um bolinho, pegou uma xícara de café e foi para a sala.

— E eu vou comer o quê? — perguntei, vendo-a se acomodar na enorme mesa da sala.

— Não sei. Você não é o gênio que descobre tudo? Descubra como vai se alimentar. — Ela sorriu de canto e deu um gole no café com ar de provocação.

Depois de me virar e garantir que comi todos os biscoitos e bolinhos que ela fez, fui para o meu quarto organizar minhas coisas. O ambiente não chegava aos pés do meu quarto na Sicília, mas, com alguns móveis novos, até que poderia servir. Espero descobrir logo o que preciso para sair daqui o mais rápido possível.

O frio estava diminuindo, e um sol tímido se arriscava entre as nuvens. Só torcia para que ela não resolvesse sair hoje. Fui até a sala e ouvi resmungos vindos dela. Cheguei mais perto e percebi que estava lendo algo em um dispositivo pequeno, provavelmente um tablet. Observando melhor, percebi que era um livro. Ela estava tão concentrada que não percebeu minha presença.

— Não acredito que ele teve coragem de dizer isso. — Ela virou a página e soltou um suspiro frustrado. — Ele é um gato, mas definitivamente não sabe o que está fazendo. Olive, minha filha, você merece mais.

Ela largou o aparelho no sofá e, em seguida, pegou o celular. Enquanto digitava o que parecia ser uma resenha em algum aplicativo de leitura, não resisti: peguei o aparelho e continuei lendo. Era uma cena amadora de sexo explícito de algum romance bobo.

— "Posso te comer?" — li em voz alta, incrédulo. — Sério que isso prende a atenção dos jovens hoje em dia?

Ela se levantou assustada, colocando a mão no peito.

— Mas que diabos?! Você é um fantasma, por acaso?

— Culpa sua. Cheguei aqui, e você estava tão concentrada nisso que nem me viu. — Dei de ombros. — E quem te deu permissão pra pegar meu Kindle? — Ela deu a volta no sofá e tirou o aparelho da minha mão. — Isso é romance literário.

— Romance? — arqueei uma sobrancelha.

— Literário. — Ela confirmou, séria.

— Então, se um cara chegar em você e pedir pra te comer, você vai achar isso romântico? Sua tia sabe que você lê esse tipo de pornografia?

— Ali Hazelwood não escreve pornografia! — Ela revirou os olhos. — E, só porque eu leio, não significa que concordo com tudo. Também leio romances com máfia e nem por isso me envolveria com um mafioso.

O comentário me pegou desprevenido. Fui até a poltrona e me sentei, encarando a lareira enquanto sentia os dedos começarem a congelar.

— E o que tem nesses livros de máfia que você lê? — perguntei, curioso, observando enquanto ela voltava a se sentar no sofá e escondia o Kindle debaixo da almofada.

— Depende. — Ela deu de ombros. — O último que li tinha um casamento arranjado. Magno, o herdeiro de uma família poderosa, ia se casar com Amber, mas ela foi assassinada dias antes do casamento. Ele jurou vingança, mas ainda precisava se casar com alguém da família de Chicago para manter a aliança estratégica. Então, ele se casou com a irmã dela, Eva. Tentaram matar Eva também, e ele começou a destruir todos os inimigos para protegê-la. No fim, ele acabou se apaixonando por ela.

Ela falou com tanto orgulho que parecia reviver a história em sua mente.

— Dei cinco estrelas no momento em que ele torturou um dos caras que tentou atacá-la da maneira mais louca possível.

Fiquei olhando para ela, tentando entender de onde esse povo tira essas ideias. Casamentos arranjados até acontecem, mas o cara se apaixonar por quem não devia... Isso já é mais difícil.

Ev

— Eu entendo que você não esteja entendendo nada disso. Pelo seu jeito, não parece ser do tipo que lê. — Levantei-me, seguindo para a cozinha.

— Achei que eu é que descobria as coisas por aqui. — Pelo tom de sua voz, percebi que ele estava me seguindo.

Abri o forno, procurando meus muffins que, pelo cheiro, deviam estar deliciosos, mas não encontrei nenhum. Fui até o outro forno e percebi que a assadeira de cookies estava vazia.

— Você comeu tudo? — Virei-me, incrédula, encontrando Justin sentado no banco, cobrindo a boca com uma das mãos, como se tentasse disfarçar a culpa.

— Sua mãe não te ensinou a dividir?

— Se eu fizesse tudo o que minha mãe me ensinou, seria o ser humano mais cruel do mundo.

Vi uma interrogação se formar em seu rosto, mas antes que ele pudesse fazer qualquer pergunta, respirei fundo e me apoiei na bancada, colocando as mãos sobre ela.

— Olha, como eu já disse, não preciso de você aqui. Minha tia é cheia de regras sobre seguranças por causa do que aconteceu com meu tio. Ela sempre teve pessoas seguindo-a para todos os lados, mas eu não preciso disso.

— Sinto muito pelo seu tio. O que aconteceu?

— Eu não sei. Um dia estava tudo bem e, no outro, minha tia cancelou minha viagem de aniversário. Tentei ligar para ele, mas ele só me mandou uma mensagem dizendo que sentia minha falta e que ia me mandar um presente porque não poderia me ver. No dia seguinte, recebi este colar. — Tirei o delicado colar de ouro com uma concha gravada e pequenos brilhantes azuis de dentro do vestido. — No outro dia, minha mãe me contou que ele estava morto. Nem pude ir ao enterro. Meu pai disse que foi um assalto, mas eu duvido. Ele sempre andava com seguranças. Acho que foi algo armado.

— Por que acha isso? — Justin tinha uma expressão que oscilava entre curiosidade e melancolia.

— Ele tinha um melhor amigo. Eles trabalhavam juntos nessa empresa e se conheciam há muitos anos. No aniversário do meu tio, ele viajou com esse amigo, mas o amigo foi morto. Ninguém sabe de onde veio o tiro. Meu tio perdeu a cabeça, ficou dias trancado no escritório. Eu até vim para cá para vê-lo, mas ele nem me atendeu. Depois disso, ele nunca mais comemorou aniversários. — Abracei-me, sentindo um aperto ao lembrar dos últimos encontros que tive com meu tio, quando percebia que o brilho em seus olhos desaparecia a cada visita.

— Entendi. E sua tia? Ela conhecia esse amigo do seu tio? Sabe o nome dele?

Encarei Justin por um momento. Não sabia se era uma boa ideia confiar em alguém que mal conhecia, especialmente quando queria que ele desaparecesse dali o mais rápido possível. Mas, se minha tia o contratou com tanta urgência, talvez ela confiasse nele.

— O nome dele era Jeremy. Não o conheci pessoalmente, mas meu tio o amava tanto que ele devia ser uma pessoa incrível. — Sorri, lembrando-me do que ouvia sobre ele. — Minha tia não gostava dele. Acho que tinha ciúmes, ou algo assim. — Ri de leve. — Meu tio sempre largava tudo quando Jeremy ligava.

— Mas eles trabalhavam na mesma empresa? — Justin me encarava com tanta seriedade que me senti intimidada. Virei-me para pegar alguns marshmallows na despensa.

— Não. Minha tia sempre teve essa marca de roupas, acessórios, qualquer coisa em que pudesse colocar o nome da família. Já meu tio e o Jeremy tinham uma companhia de restaurantes, hotéis, cafeterias...

— Então daí vem seu talento na cozinha? — Ele relaxou os ombros, desviando o olhar para minhas mãos enquanto eu separava os ingredientes para fazer s’mores.

— Obrigada pela parte que me toca. — Continuei focada nos ingredientes. — Meu tio abriu um restaurante em Staten Island. Fiz um curso lá e acabei ficando para trabalhar.

Peguei o pote de chocolate, mas ele parecia lacrado com supercola. Estava tão concentrada tentando abri-lo que nem percebi Justin se aproximar. Com uma facilidade irritante, ele tirou o pote da minha mão e abriu sem esforço.

— Você não parece precisar de um emprego. — Ele olhou em volta, e revirei os olhos.

— Dinheiro não é o centro do universo. Não quero ser uma inútil que vive de tudo o que o dinheiro dá. Dinheiro é apenas um instrumento para a felicidade.

— Você leu isso em algum livro? — Ele se encostou na bancada, cruzando os braços.

— Não. Meu tio sempre dizia isso. — Coloquei os s’mores no forno e virei-me, cruzando os braços como ele. — Como eu estava dizendo, não preciso de você aqui. Posso dirigir sozinha e ir aos lugares sozinha. Se você precisa tanto desse dinheiro, pode continuar aqui cuidando da casa. Pelo que sei, minha tia quase nunca vem, e algumas coisas precisam de manutenção.

— Você é a primeira pessoa que vejo achar ruim ter um motorista e um segurança. — Ele arqueou uma sobrancelha, e aproveitei para reparar melhor em seu rosto perfeitamente esculpido. Seus olhos cor de mel tinham um tom mais escuro sob a luz fraca, e havia uma pequena tatuagem de cruz no canto de seu olho direito.

— Posso cuidar de mim mesma. — Soltei os braços e tentei me apoiar na pia, mas minha mão escorregou. Quase caí no chão, mas Justin foi mais rápido e segurou minha cintura.

— Estou vendo. — Ele me colocou de pé novamente, ainda me segurando firme.

— Pode me soltar agora. — Tentei desviar o olhar de seus olhos, que pareciam ainda mais seguros naquele momento.

— Talvez eu deva continuar aqui, para evitar acidentes futuros. — O tom de ironia em sua voz me fez corar.

Afastei-me dele rapidamente, tentando recuperar o controle, e saí da cozinha sem olhar para trás.

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