We Are - Capitulo 18
Justin
Um mês já tinha se passado desde o ataque covarde contra Domenico. Por um milagre — ou pura teimosia — ele não ficou com nenhuma sequela além das cicatrizes. Sobreviveu. Forte, do jeito que sempre foi. E agora, com uma investigação mais aprofundada, eu finalmente consegui montar parte do quebra-cabeça.
Descobrimos que os capangas de Nacho tinham invadido o bar pelos fundos. Foram eles. Invadiram. Espancaram Domenico sem piedade. O motivo? Ainda era um buraco em branco… mas algo me dizia que a resposta estava muito mais perto do que a gente imaginava.
— Vamos lá — disse Ryan do outro lado da chamada de vídeo. Sua voz ecoava pelo cômodo silencioso. — O que sabemos até agora é que Paulina está aliada a Simone e Nacho porque ela quer tomar o território de Las Vegas. Ela só consegue isso se uma Lancaster de sangue — ou seja, a protegida do Justin — se casar com Nacho. Aí sim ela teria acesso a uma parte do poder, e Nacho ganharia legitimidade e o controle sobre o dinheiro dela quando os sobrenomes se unirem.
— Mas isso provavelmente não vai acontecer, né? Já que o Justin tá completamente apaixonado e não vai deixar essa garota se casar com outro homem.
Ele fez uma pausa, e pela minha visão periférica vi Domenico rindo baixo. Ignorei. Ryan continuou, com aquele tom provocador que ele sempre usava quando queria me tirar do sério.
Revirei os olhos, ignorando a provocação. Continuei analisando os papéis espalhados na mesa do bar fechado, cada um com provas, nomes e conexões suspeitas.
— Ainda assim, isso não explica por que ela mandaria matar o meu pai… ou o Gianni. — Minha voz saiu tensa, baixa.
— Talvez Gianni tenha descoberto os planos dela — sugeriu Ryan, sem tirar os olhos do celular. — E como ele não quis participar, ela deu um jeito de tirá-lo do caminho. Isso deixaria a Ev vulnerável, fácil de manipular.
Fazia sentido. E o pior: batia com a linha do tempo.
— Justin, você comentou que a Ev só foi morar com Paulina porque os pais dela armaram tudo, certo?
Assenti, tenso.
— Isso reforça ainda mais a teoria — Ryan completou.
— Vou passar essas informações pro Mario — ele disse, já se preparando para sair da ligação.
— Não — falei firme, chamando a atenção dele e de Domenico.
— Tá maluco? — Ryan me encarou pela tela. — Ele tá cuidando de tudo na ausência do seu pai. Ele precisa saber.
— Talvez — respirei fundo — mas eu encontrei o nome dele em alguns documentos no escritório da Paulina. Ele ajudou meu pai a transferir uma ilha inteira pro nome da Ev.
O silêncio na sala foi imediato.
— A gente precisa encontrar essa ilha — murmurei, me jogando no sofá, a mente girando a mil. — Mas não há nenhuma pista de localização. Nada.
— Ok — Ryan assentiu, ainda meio atordoado. — Mario fica fora disso, por enquanto. Mas o que eu digo pra ele?
— Diz que não conseguimos nada ainda. Que eu vou continuar procurando hoje à noite.
— Talvez eu consiga algo com a Kaia — Domenico acrescentou. — As duas são amigas, e os pais da Kaia são bem próximos da Paulina. Pode ser um começo.
— E outra coisa — Domenico cortou, com a voz grave — a gente ainda precisa descobrir por que os homens de Nacho bateram em mim. Isso tá estranho demais.
Ryan suspirou, preocupado.
— Olha… não é querendo ser pessimista, mas vocês deveriam sair daí. Se alguém descobrir que estão investigando, vocês tão ferrados. Não temos aliados em Portland. Se algo acontecer, ninguém vai poder proteger vocês a tempo.
— A gente tá perto de uma descoberta importante — respondi. — E eu não sou mais um garoto. Sei me defender.
Trocaram-se mais algumas palavras, risos baixos de Domenico tentando aliviar o clima, até que Ryan congelou. O rosto dele empalideceu, os olhos fixos na tela do celular.
— Falando em segurança… acho melhor você ir pra casa agora, Justin.
Ele compartilhou a tela, e uma imagem apareceu imediatamente: um carro prata. O mesmo carro que foi visto fugindo do bar na noite do ataque. Agora, estacionado calmamente em frente à mansão dos Lancaster.
Aquela sensação que já me acompanhava há semanas voltou com força total. Um soco no estômago. Coração acelerando como se quisesse sair pela garganta.
Levantei num pulo, jogando os papéis dentro da mochila sem dizer mais nada. Nem me despedi.
O tempo estava acabando. E se eles estavam perto demais da Ev… eu também precisava estar.
Antes que fosse tarde demais.
Ev
Passei o dia inteiro na cama, afundada nos lençóis e nos meus próprios pensamentos. A cabeça era um campo de batalha entre o “tá tudo bem” e o grito desesperado de “corre daí, garota!”. Os últimos dias tinham sido sufocantes. E a distância de Justin, o jeito frio com que ele vinha me tratando… só deixava tudo ainda mais fora de órbita.
Ouvi a campainha tocar, mas não me movi. Provavelmente era o Justin esquecendo a chave de novo. Ele sempre acabava entrando pelos fundos.
Mas alguns minutos depois, um barulho estranho na sala me fez levantar. Enrolei um roupão no corpo e fui ver o que estava acontecendo.
— O aviso está dado — ouvi a voz de Nacho. Ele e Justin estavam frente a frente, separados por poucos centímetros, a tensão entre os dois quase palpável.
— Vocês vão se beijar ou eu estou ficando doida? — desci os degraus rindo, parando entre eles. — Foi mal, não sabia que estavam num momento íntimo.
— Você sabe que a única boca que eu quero beijar é a sua — Nacho disse com um sorriso lento, os olhos cravados em mim.
— O que você quer aqui, Nacho?
— Vim te entregar o convite do meu aniversário. Esse ano vai ser especial — ele estendeu um envelope elegante. — Um baile de máscaras. Black tie. Só pra quem importa.
Peguei o convite, mas mantive a expressão neutra.
— Ai, que pena... acho que vou estar gripada nesse dia. E é contagioso.
— Deixa de besteira. Sua roupa já tá pronta — ele sorriu com aquela confiança insuportável. — Você é minha convidada de honra. Chegue cedo. Tenho algo que quero muito te mostrar. Tenho certeza de que vai amar.
— Nacho, eu já disse que isso entre a gente não vai acontecer.
— Tudo bem, linda — ele deu um passo pra trás, ajeitando os botões do terno. — Mas você vai querer que aconteça. Eu garanto.
Ele lançou um último olhar para Justin, que continuava imóvel, os punhos fechados e o maxilar travado. A tensão dele era quase palpável.
— Não esquece da sua máscara — Nacho falou antes de sair. — Vai ser a melhor festa do ano.
E então ele se foi, deixando um rastro de perfume caro e incômodo no ar.
Fiquei parada por alguns segundos, encarando o nada, até me virar pra Justin e segurar sua mão, tentando puxá-lo de volta pra realidade.
— Então... eu tava pensando que a gente podia assistir um filme hoje. Ou fazer aquele nosso jantar e comer na piscina. O que acha?
Ele se afastou.
— Não. Tô cansado. Com dor de cabeça. Sei lá. Vou tomar um banho e dormir.
— Posso fazer um chá... ou uma massagem — tentei sorrir, leve.
— Dá pra parar com isso? Chá não cura dor de cabeça. Vou tomar um remédio. Só isso.
A voz dele foi dura demais pra algo tão simples. Meu sorriso morreu nos lábios. Foi aí que percebi a pasta jogada no sofá. Ele a pegou com pressa e seguiu direto pro quarto.
Meu coração vacilou quando ouvi a chave girar na fechadura. Ele tinha trancado a porta.
E aquela porta trancada parecia muito mais do que só um pedido de silêncio.
Parecia um aviso de que algo entre a gente estava desmoronando. E eu não fazia ideia de como consertar.
Justin
Eu estava à beira de explodir. As mãos trêmulas, o estômago embrulhado, e o coração batendo no ritmo acelerado de quem sabe que está prestes a perder tudo. Ele sabia. Nacho sabia. Não apenas sobre mim… mas sobre minha origem, minha linhagem, e estava a um passo — um mísero passo — de descobrir o motivo real de eu estar aqui.
Assim que entrei em casa, ele já estava ali. Sentado, confortável demais para alguém que deveria ser apenas um visitante.
— Eu te dou dois dias — ele disse com a voz baixa, mas afiada como uma lâmina. — Pra juntar suas coisinhas e sumir daqui. Leva o teu amiguinho do hospital também.
Meus punhos se fecharam involuntariamente.
— Do que você tá falando?
Ele se levantou com um sorriso torto, arrogante, e andou até ficar a poucos passos de mim.
— Eu sei quem você é, Justin. Sei de onde veio. Sei o sobrenome que você esconde. Sei da sua linhagem. Aquela que não sabe o que é lealdade. — Ele riu, debochado. — Seu pai abandonou sua mãe grávida do Ryan, lembra? E mesmo depois, quando levou aquele tiro no ombro — quase te levou junto — ainda assim preferiu manter a pose do que proteger o umbigo. Mandou te arrastarem daquele terraço como se você fosse um fardo.
Meu sangue começou a ferver, mas ele não parou.
— Agora, usar uma mulher... fazer ela se apaixonar só pra conseguir o que quer... não acha isso baixo demais? Até mesmo pra um Bieber?
— Você tá falando merda, Nacho. Você não sabe do que tá falando.
— Ah, por favor — ele me interrompeu, o sorriso ainda nos lábios. — Achou mesmo que usar o sobrenome da sua mãe ia te proteger? Vocês querem território, não é?
— Escuta aqui, Nacho…
— Não, escuta você, Bieber — ele rosnou, se aproximando mais. — Isso acabou. Dei o recado. Seu amigo quis bancar o espertinho e eu mostrei como minha família lida com traidores. Agora é sua vez de sair de fininho.
Ele se inclinou, a voz mais baixa, mais letal:
— Porque eu vou me casar com a Ev. Eu vou carregar o sobrenome dela. E eu vou tomar Portland. E você… você não vai querer estar por aqui quando isso acontecer. Meu pai ainda hesita por respeito ao Gianni. Mas eu? Eu não tenho esse problema. O aviso tá dado.
Ele saiu como se tivesse acabado de assinar um contrato de vitória, deixando um rastro de ameaça que ainda impregnava o ar.
E eu fiquei ali, parado, com a mente girando a mil. O que antes era só um jogo perigoso agora virava um campo minado prestes a explodir. Pouco me importava, naquele momento, quem matou meu pai. Ou o Gianni. O que importava… era ela.
Ev.
A mulher que bagunçou minha cabeça. Que atravessou todas as defesas que eu construí. A única que realmente importava.
E eu sabia. Mantê-la ao meu lado agora era o mesmo que colocá-la no meio do fogo cruzado.
Eu precisava agir. Precisava tirá-la daqui. E rápido.
Antes que o mundo dela — ou o meu — desabasse de vez.
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