We Are - Capitulo 17
Justin
Minha cabeça parecia prestes a explodir. Tudo se misturava em uma confusão caótica — a imagem do meu irmão jogado no chão, com o rosto irreconhecível e a pele pálida como cera, não saía da minha mente.
Assim que entramos, Ev acionou os alarmes da casa.
— Você acha que alguém queria se vingar dele? — ela perguntou, quebrando o silêncio pesado.
— Se vingar? Do quê você tá falando? — retruquei, tentando entender a lógica por trás daquela suposição.
— Sei lá... o bar dele tá ficando famoso no bairro. Vai saber se alguém não tá com inveja.
— Pode ser — respondi, apenas para encerrar o assunto.
— E a polícia? O que disseram? — ela insistiu.
— Não chamei a polícia.
— O quê? Por que não?! — Ela parou no meio da sala, virando-se para me encarar. — Justin, eu sei que a gente ainda tá conhecendo ele, mas poxa... ele é nosso amigo. E tá com a Kaia.
— Isso não é problema seu — rebati, com a voz baixa, mas firme. — Eu vou resolver.
— Justin, isso não pode ficar assim!
Eu não queria discutir com ela. Ev não fazia ideia do que estava realmente acontecendo. Enquanto ela falava, meu celular vibrava com notificações — mensagens de Ryan, Mario... até que uma gravação chegou. Era das câmeras de segurança do bar.
Um carro prata estacionado discretamente nos fundos. Pouco depois que Ev e Kaia se aproximaram do local. Logo depois o veículo arrancava em alta velocidade. Na filmagem, dava para ver Ev se aproximando do portão, observando atentamente o carro antes que ele sumisse da cena.
Por que ela ficou tão atenta àquele carro?
Levantei o olhar para ela, que parou de falar ao perceber minha expressão.
— Porque olhou tanto pro carro? — Falei erguento o rosto e a encarando.
— Sério que você não ouviu uma palavra do que eu disse? — ela perguntou, frustrada.
— Você ainda não respondeu a minha pergunta — murmurei, me aproximando com o celular em mãos. Toquei na tela e mostrei a gravação. — Por que você olhou tanto pra esse carro?
— Se você estivesse realmente me escutando, saberia que eu estava falando sobre isso — Ev rebateu, cruzando os braços. — Achei que tinha visto algo… ou alguém conhecido dentro do carro.
A encarei, sentindo o estômago revirar.
— E reconheceu? — perguntei, tentando manter a voz firme.
Ela hesitou por um instante.
— Não… não tenho certeza. A pessoa estava de óculos escuros, e a iluminação não ajudava em nada. Mas…
— Mas?
Foi quando tudo começou a se encaixar de forma perturbadora. E pela primeira vez naquela noite, um calafrio percorreu minha espinha.
— A placa do carro — ela continuou, a voz mais baixa agora, como se tivesse medo de ouvir a própria conclusão. — Eu posso estar enganada… mas acho que o carro pertence à família do Nacho.
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Ev
Justin estava diferente. Havia algo no olhar dele, na forma como andava de um lado para o outro como um animal encurralado. E aquilo me assustava.
— Você tá estranho demais, Justin. O que tá acontecendo? — perguntei, dando um passo em sua direção.
— Nada. É melhor você ir dormir. — A frieza na voz dele me cortou como uma lâmina.
— Justin, por favor. Me conta o que tá acontecendo. Deixa eu te ajudar, poxa. A gente tá junto nisso, não tá?
Ele fechou os olhos por um segundo e respirou fundo. Quando os abriu, me encarou de um jeito intenso, como se estivesse preso entre duas decisões impossíveis.
— Não se mete nisso, Ev… Nada disso estaria acontecendo se…
Ele parou. As palavras morreram na garganta dele. Algo o fez recuar, se calar.
Depois de alguns segundos de silêncio pesado, ele apenas disse:
— Me espera lá no seu quarto. Eu já vou.
Hesitei, mas obedeci. Subi as escadas devagar, ainda com o coração acelerado. Precisava falar com Kaia. Precisava saber se ela estava bem.
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Justin
O celular vibrou pela décima vez em menos de cinco minutos. Era Mario de novo. Respirei fundo e finalmente atendi.
— O que foi? — perguntei, tentando manter o controle. Mas no fundo, eu sabia que a noite estava longe de acabar.
— Você só tinha uma tarefa: passar despercebido — a voz de Mario veio carregada de frustração do outro lado da linha.
— Mario, não faz sentido você jogar isso em cima de mim. Não tem nenhum motivo pra ele desconfiar de mim ou do Domenico.
— É o que você diz. Mas Domenico está entre a vida e a morte no hospital. Isso não parece uma simples coincidência.
— Ele não vai morrer. — Minha voz subiu um tom antes que eu conseguisse conter a raiva. Respirei fundo, tentando manter o controle. — Eu vou descobrir o que realmente está acontecendo.
— Eu te digo o que tá acontecendo — ele disparou, sem nem dar espaço para debate. — Você é um irresponsável. Não tá descobrindo porcaria nenhuma. Cada dia perdido custa caro. A gente precisa de respostas. E de vingança.
— Mario, eu mais do que ninguém quero justiça. Quero acerto de contas, sim. E estou tentando. Já descobri bastante coisa, você precisa confiar em mim.
— Isso tá indo longe demais. Tá na cara que essa família tá envolvida. Matamos as duas e pronto.
Houve um silêncio. Um silêncio denso.
— Você tá maluco? — murmurei, entre chocado e furioso.
— Olha o respeito, garoto.
— Primeiro: eu não sou mais um garoto. Segundo: Gianni amava a sobrinha como se fosse filha. Ela não tem nada a ver com isso. Você não vai tocar um dedo nela. Tá me ouvindo? Só me liga de novo se for pra dizer algo útil.
Sem esperar resposta, desliguei.
Na mesma hora, disparei uma mensagem para Ryan:
"Fique de olho no Mario. Ele tá ultrapassando limites."
Mario trabalhava pra minha família desde os tempos do meu avô, mas agora... agora ele estava ultrapassando os limites demais.
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Ev
Finalmente consegui falar com Kaia ela que Domenico ainda não respondia aos estímulos dos médicos, mas que estavam fazendo de tudo para reanimá-lo. Ele passaria por algumas cirurgias nas próximas horas, e, apesar de tudo, os médicos pareciam otimistas. Ele tinha chances.
Estava pensando nisso quando Justin entrou no quarto.
— Domenico vai entrar em cirurgia agora — ele disse, encostando na porta. — Kaia foi pra casa. O bar foi fechado.
— Eu sei. Falei com ela há pouco — respondi, me ajeitando na cama.
Ele deu alguns passos até se sentar ao meu lado.
— Me desculpa por ter falado daquele jeito com você mais cedo. Eu estava no limite… tudo aquilo me deixou fora de mim.
— Tudo bem, Justin. Eu entendo — respondi, sincera. Eu entendia mesmo.
— Alguma notícia da sua tia?
— Ela me mandou umas fotos de Paris. Tá saindo com um ricaço, parece. Disse que vai andar de iate amanhã — dei um sorriso pequeno, sem graça.
— Então… ela não vai aparecer aqui amanhã — ele falou com um tom sugestivo no olhar.
— É o que tudo indica — respondi, com um sorriso leve, mas sem me comprometer.
Ele se encostou melhor, como se deixasse o peso da noite finalmente sair dos ombros.
— Que tal a gente tomar um banho e assistir alguma coisa? Tô sem sono.
— Pode ser.
O som da água caindo era quase hipnótico, abafando o mundo lá fora. O vapor já embaçava o espelho e aquecia o ar ao redor, mas o calor de Justin… era outro. Era aquele tipo de calor que vinha de dentro, que acendia nos olhos e queimava sob a pele.
Ele me puxou pela cintura, com firmeza e ternura, me guiando para dentro do box como se fosse a coisa mais natural do mundo — e, com ele, era.
Seus dedos deslizaram pelas minhas costas com a familiaridade de quem conhecia cada curva, mas com a delicadeza de quem ainda queria redescobrir tudo, como se fosse a primeira vez.
— Tá com frio? — ele perguntou, com aquele sorriso torto e provocante que fazia meu estômago virar.
— Com você aqui? Nem em um iglu — respondi, mordendo o lábio enquanto sorria.
A água morna escorria entre nós, tornando cada toque mais lento, mais íntimo, mais inevitável. Ele se inclinou e me beijou com uma mistura de desejo contido e carinho real — como se estivesse me dizendo tudo o que as palavras não alcançavam. Me apoiei contra o peito dele, sentindo o coração dele bater firme, compassado com o meu.
Nossos corpos se encaixavam com a precisão de algo que nasceu pra ser. As mãos dele desceram pelas minhas coxas e me puxaram ainda mais pra perto. Gemei baixinho contra os lábios dele, enquanto o mundo sumia atrás do véu do vapor. Ali, éramos só nós dois.
Com movimentos lentos, ele pegou o sabonete e começou a passá-lo pelas minhas costas, traçando caminhos invisíveis com espuma e carinho. A voz dele veio baixa, rouca no meu ouvido, elogiando cada detalhe meu como se fosse uma obra de arte exposta só pra ele.
— Eu podia ficar aqui com você pra sempre — sussurrou, os olhos fixos nos meus como se estivesse encantado.
— Ia acabar todo enrugado — brinquei, sorrindo enquanto me virava pra ele e deixava o sabonete líquido escorrer nas mãos. Esfreguei até criar espuma, que espalhei pelo peito dele, subindo até os ombros numa leve massagem.
— Você tá tenso — comentei, observando cada pequeno arrepio da pele dele sob meus dedos.
— Já vai passar — murmurou, antes de me puxar para mais um beijo. A água quente escorria entre nós, levando embora a tensão, como se lavasse o que era peso e deixasse só o que conectava a gente.
Houve um silêncio confortável, até que falei, sem pensar demais:
— Às vezes eu tenho vontade de sumir… ir embora pra bem longe, recomeçar tudo do zero.
Justin me encarou com os olhos semicerrados, uma sombra de sorriso nos lábios.
— Então vamos.
Soltei uma risada, balançando a cabeça.
— Tá maluco? Com que dinheiro? Eu não sou rica igual minha tia. E pra onde a gente iria, hein? Ela colocaria Portland abaixo atrás de mim.
A ideia era quase engraçada, quase trágica — e, ainda assim, por um segundo, tentadora. Suspirei quando ele me beijou de novo, devagar, como se quisesse fazer o tempo parar ali.
— Tá tudo um caos — confessei, encostando a testa na dele. — Mas ter você aqui… me faz sentir segura.
— É mesmo? — ele perguntou com um meio sorriso, os olhos atentos nos meus.
— Sim. Muito.
E, pela primeira vez em dias, isso era verdade. No meio de tudo, ele ainda era meu ponto de paz.
Justin
Ela estava deitada de lado, com o lençol deslizando preguiçosamente sobre a cintura, deixando metade do corpo à mostra. O cabelo caía bagunçado sobre o travesseiro, a boca ainda levemente inchada dos nossos beijos. E eu?
Eu tava completamente ferrado.
Porque Ev não era só um corpo lindo jogado na minha cama ou a garota que eu tinha que proteger. Ela era a bagunça perfeita no meio do caos. Ria de um jeito que desmontava qualquer defesa minha, me provocava com uma facilidade que beirava o cruel… e agora, ali, me olhava com aqueles olhos que pareciam enxergar tudo que eu tentava esconder.
— Por que tá me olhando assim? — ela perguntou, com aquele sorriso de canto que já vinha com aviso de perigo.
Me apoiei no cotovelo e deixei os dedos deslizarem devagar pelas costas dela, como se desenhassem um mapa que eu já conhecia de cor — mas nunca cansava de explorar.
— Porque você é bonita demais. Injusto isso — murmurei, minha voz rouca, carregada de tudo que eu ainda não conseguia dizer em voz alta.
Ela arqueou a sobrancelha e se aproximou, os lábios a um fio de encostar nos meus.
— Só bonita?
— Hmm… gostosa, provocante, insuportavelmente viciante. Melhorou?
Ela riu, e o som me fez sorrir antes que eu pudesse impedir. Droga. Ela fazia isso. Invadia sem bater, e quando eu percebia, já era tarde demais pra me proteger.
— E você? — ela perguntou, deixando os dedos descerem lentamente pelo meu peito. — Sempre fala assim com todas?
— Não — respondi antes de pensar. Rápido demais. E ela percebeu.
O sorriso dela vacilou por um segundo. Me olhou com seriedade, como se estivesse testando o terreno.
— Então por que comigo é diferente?
Meu coração bateu forte. Tão forte que eu quase podia ouvir. E ela estava ali, esperando. Quase me desafiando.
— Ev...
Não deu tempo. Ela me puxou pela nuca e colou a boca na minha, me silenciando com um beijo lento, profundo, carregado de tudo o que nenhum de nós conseguia dizer em palavras.
Soltei um gemido baixo contra os lábios dela, minhas mãos já explorando cada centímetro das coxas, puxando-a para mais perto, até ela escorregar e se acomodar sobre meu quadril. O olhar dela de cima, firme, decidido, dizia tudo: "Você não escapa."
E eu sabia.
Eu tava perdido.
Porque o que eu sentia por ela não era só pele. Era algo que apertava o peito quando ela sorria. Que me invadia quando ela sussurrava meu nome. Que fazia o mundo inteiro calar quando ela me olhava daquele jeito.
Mas eu não podia me entregar por completo. Não agora.
Não enquanto eu não soubesse se Nacho — ou pior, o pai dele — sabia quem eu realmente era.
Porque eu tava no território deles. E aqui, eles tinham poder. Eu não.
Só de imaginar que algo pudesse acontecer com ela e que eu talvez não pudesse fazer nada… meu sangue fervia.
Uma coisa era certa: Ev iria para Sicilia comigo.
Eu ainda não fazia ideia de como, ou quando, mas já tinha tomado minha decisão.
Não ia deixá-la aqui, desprotegida, nesse tabuleiro sujo que eu conhecia bem demais.
Ela era o único pedaço de paz que eu tinha.
E eu ia proteger isso com tudo que eu fosse.

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